4 de dez. de 2016

UM NOVO CAMINHO É POSSÍVEL?

A mão humana se mistura com as forças da natureza para compor a paisagem. Lavoura de arroz na várzea do Rio Pardo, município de Rio Pardo, RS (Foto: Leon Maximiliano Rodrigues).

Nosso sistema se mostra cada vez mais autofágico, autodestrutivo. Alimentá-lo através do nosso consumo é o comportamento mais natural. Parece a coisa certa a se fazer, pois vemos todo mundo vivendo dessa forma. Quanto mais melhor. Quanto mais industrializada, pasteurizada, processada, refinada for nossa vida, melhor. Pelo menos e o que nos parece...

Vivemos a era dos descartáveis. Não só as embalagens, mas nossas roupas, carros, celulares, computadores, amizades e ideias também estão se tornando descartáveis. E isso é fácil de entender. Para um sistema baseado no mercado é preciso vender. E quanto mais vendermos melhor. Assim o descartável, a substituição de algo por algo mais novo é muito estimulada. Coisas duráveis não fazem bem para o "mercado", pois impede de vender mais.

Por outro lado, vemos muitas pessoas condenando o consumo, as amizades superficiais, o descaso com a natureza, etc. Isso é, até certo ponto, bom, e mostra um lampejo de conscientização. Mas, na prática, nossa sociedade está tão transformada numa grande máquina de vida expressa, que nos resta quase nenhuma alternativa para ser diferente e desfrutar melhor a vida.

Por exemplo, se desejamos consumir algo mais natural, mais orgânico, vamos ao mercado e simplesmente não encontramos, exceto em raros pontos em grandes centros urbanos ou em locais distantes onde se escondem os poucos produtores orgânicos e agroecológicos.

Apesar disso, muitos se empenham -- e poucos o conseguem -- em tentar um estilo de vida mais saudável em todos o sentidos: alimentação, convívio humano, ambiente de vida e de trabalho, etc. Mas, o desejo de romper com o sistema cresce visivelmente. É só conferirmos as mídias sociais e o comportamento das pessoas.

Contudo, romper com o sistema na busca de um futuro sustentável não significa subir no palanque e dar discursos inflamados, ou se candidatar por um partido menos conhecido que defende ideias nada ortodoxas. Muitos que fizeram isso acenderam ao poder, mas não conseguiram romper com o sistema de fato. Ou se corromperam ou foram excluídos.

Romper com o sistema, antes de qualquer coisa, significa assumir atitudes práticas que nos distancie do que julgamos errado e nos aproxime do que entendemos ser mais sustentável e daquelas pessoas com quem podemos colaborar através de um estilo de vida mais humano e sustentável.

24 de jan. de 2016

Um Giro de Notícias, a Questão Ambiental e as Conexões Ocultas

A NATUREZA RECICLA TUDO. Folha no início do processo de decomposição, o qual liberará seus nutrientes para os processos biogeoquímicos dos ecossistemas. Processos complexos também expressam beleza. Foto: Leon Maximiliano Rodrigues
Não é possível crescer indefinidamente. Nenhum modelo teórico ou base de dados sustenta a ideia de um crescimento permanente e eterno. Qualquer sistema tem uma capacidade suporte limitada no tempo e no espaço. A Terra e a sociedade estão inclusas neste raciocínio. Por isso, é chocante perceber que as grandes autoridades do mundo ainda acreditam no “crescimento” como sinônimo de “desenvolvimento”. E que isso deve ser buscado permanentemente a qualquer custo. Trata-se virtualmente de um dogma religioso da sociedade atual.

A busca cega pelo crescimento permanente — da economia, do consumo, da produção, etc. — só leva a um prognóstico bastante óbvio: colapso. Não me surpreenderia se fosse descoberto, daqui a alguns anos ou décadas, que a crise mundial pela qual estamos passando é resultado da busca descontrolada da sociedade pelo crescimento permanente, e que esse talvez tenha sido um dos maiores erros de nossa época.

Não é mais possível negar que, independentemente de regime de governo, tendência política e medidas econômicas, o mundo inteiro avança cada vez mais numa crise sem precedentes. Não trata-se mais da crise do país X ou Y, do governo A ou B. A crise é mundial, é do próprio mercado global. As nações tem seus altos e baixos, mas em média a crise se agrava.

O aumento do consumo das famílias e da qualidade de vida no Brasil nas duas últimas décadas pode ser atribuído a um redirecionamento da economia para as classes mais baixas. Isso, associado ao nosso vasto território privilegiado em termos de recursos, certamente levou ao crescimento econômico e social. Mas isso tem um custo. Nossos recursos naturais estão diminuindo: florestas, fertilidade do solos, minerais, petróleo, etc. Nossa posição vantajosa em relação aos recursos naturais permite uma sobrevida durante a crise. Mas, cedo ou tarde a natureza dará seus avisos de que estamos nos aproximando de um limite crítico. Por outro lado, os limites do manejo econômico já são sentidos, como mostram algumas matérias. Já se fala em recessão no Brasil (1), e a indústria nacional parece dar sinais de arrefecimento (2;3).

Ao vasculhar recentemente as notícias dispersas na internet sobre diferentes temas da atualidade, incluindo as já citadas, fica claro, para os mais atentos, os sinais de que o sistema (o planeta e a sociedade) ajustam-se a esse cenário. Porém, tratam-se de informações dispersas em notícias de diferentes áreas, aparentemente não relacionadas. Tais informações incluem desde o consumo das famílias à opinião de importantes cientistas.

Por exemplo, lá no outro lado do mundo, a China se estabeleceu como a grande potência econômica atual. Mas, seu poder não é infinito. É sim delimitado pela disponibilidade de recursos (naturais) — o espaço talvez seja um fator importante — para serem explorados e transformados em riquezas. Porém, tais recursos vem de um planeta com reservas limitadas e sendo explorado por muitos outros países também bem povoados.

Num país superpopuloso, com uma sociedade altamente consumista — assim como o planeta como um todo —, a tendência é a superexploração dos recursos. Então, cedo ou tarde, a curva de crescimento tem que desacelerar, acompanhando o ritmo da redução e/ou esgotamento dos recursos. Afinal os recursos não crescem como a população e o padrão de consumo. Em matéria do iG São Paulo (4) é destacado que o PIB da China cresceu 6,9% em 2015, sendo a menor taxa de crescimento desde 1990. Essa taxa, segunda a matéria, “ficou um pouco abaixo do esperado pelo governo chinês”. Então é claro que se espera sempre o crescimento. E talvez as menores taxas de crescimento registradas recentemente para o país sejam sinais de que os limites estão se aproximando.

Pode ser isso que acontece com as culturas consumistas mais antigas, como a norte-americana e a europeia. As nações desses dois continentes nunca enfrentaram crises crônicas como a atual, na forma de uma crise coletiva das nações. A China — e outros países, como o Brasil — só estaria seguindo os mesmos passos, porém em ritmo mais acelerado devido ao padrão de consumo atual, o tamanho da população e a tecnologia disponível para exploração dos recursos.

No caso dos padrões de consumo mencionado acima, todos pensam que o ideal é que o poder de consumo das pessoas “aumente”. Existe até um indicador estatística para essa variável: Intensão de Consumo das Famílias (ICF). E existe também, assim como a preocupação com o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de uma nação, uma preocupação com o crescimento desse índice e de como o Brasil, por exemplo, está em relação a outros países (5). Portanto, a ideia de crescimento esta profundamente enraizada na noção de desenvolvimento e baliza o julgamento sobre o sucesso de um país na busca pelo desenvolvimento.

Caso os padrões econômicos e culturais atuais não mudem, a desaceleração pode ser catastrófica, na forma de um colapso. Essa percepção já inspirou diversas produções cinematográficas. Mas não trata-se de teoria conspiracionista ou paranoia transformada em boa estória. Existe respaldo científico para tal possibilidade, e tem a ver com a “capacidade suporte” dos sistemas ecológicos. Tem a ver também com o conceito de “sustentabilidade” tão alardeado nos discursos políticos e nas mídias de massa, mas muito pouco compreendido. O renomado físico Stephen Hawking comenta em entrevista à BBC que, através do progresso da ciência, o homem cria “formas de as coisas darem errado” (6). Hawking fala sobre a possibilidade de desastre em uma escala de tempo de mil ou dez mil anos. Contudo, salienta que “não vamos conseguir estabelecer colônias autossustentáveis no espaço nos próximos séculos, então temos que ser muito cuidadosos neste período”.

Em outra matéria, a qual expõe especificamente a os quatro possíveis cenários futuros previstos por Hawking — e que inclui um destino trágico para a humanidade devido a problemas com o desenvolvimento de armas nucleares, inteligencia artificial e vírus desenvolvidos em laboratório —, o aquecimento global entre como o fator determinante de um dos cenários possíveis (7). Porém, dentre as quatro vias possíveis para um destino trágico, o aquecimento global parece ser a mais inevitável das alternativas. Hawking destaca que "uma das consequências mais graves de nossas ações é o aquecimento global, causado pelos crescentes níveis de dióxido de carbono resultantes da queima de combustíveis fósseis. O perigo é que o aumento da temperatura se transforme em (um processo) autossustentável, se é que já não está assim".

Entretanto, a grande questão ecológica, e não física, não diz respeito de um possível desastre com a humanidade e da colonização do espaço. A grande questão é que até que algum desastre se configure, as coisas devem piorar gradativamente devido às mudanças climáticas e outros problemas ambientais. A consequência disso é a degradação da qualidade e aumento do custo de vida. Até onde se sabe, já ultrapassamos a capacidade suporte do planeta, como sugere matéria da Planeta Sustentável de 2010 (8). Já ultrapassamos o ponto de virada da curva de equilíbrio entre “crescimento” (do consumo, da economia e da população) da sociedade e a disponibilidade de recursos naturais para sustentar a humanidade. Por isso, é lógico esperar um arrefecimento da economia.

Voltando um pouco mais longe no passado, desde a década de 60 até o período atual, os problemas ambientais evoluíram de problemas locais, como o lixo entupindo uma vala, passando pelas inversões térmicas nos grande centros urbanos, as chuvas ácidas, até o que chamamos atualmente de “mudanças globais”, que inclui não somente as mudanças climáticas, mas muitas outras mudanças, como a degradação sistemática dos solos no mundo inteiro e as novas epidemias, como o zika virus (9) que se proliferam facilitadas pela grande densidade populacional e a mobilidade das pessoas.

Porém, junto com a abrangência dos problemas ambientais cresce a complexidade dos mesmos, sendo os problemas atuais mais difíceis de gerenciar e mais complicados de entender. Por isso, os métodos e estratégias políticas e de gestão tradicionais não são mais suficientes para lidar com as demandas atuais. Assim, muito provavelmente a crise atual exige da mesma forma um novo nível de compreensão e organização por parte dos agentes do poder e da própria sociedade. Esse novo patamar de compreensão e organização deve ser tão abrangente e estruturado como os problemas a serem resolvidos. Nesse sentido Hawking alerta ainda que “é importante garantir que estas mudanças estejam indo na direção certa. Em uma sociedade democrática, isto significa que todos precisam ter uma compreensão básica da ciência para tomar decisões esclarecidas sobre o futuro”.

Ciberografia

31 de mar. de 2015

Mar de Estrogênios: Poluição Invisível

Petúnia nativa (Ipomoea cf. cairica− (Rio Pardo, RS)
Foto: Leon Maximiliano Rodrigues

Um artigo de 2015, publicado na revista Human Reproduction, trata de um estudo recentes que mostram uma relação do consumo de alimentos com pesticidas e a redução na produção e qualidade do esperma em homens (Chiu et al., 2015). No mesmo ano o estudo ganhou destaque em diferentes sites de notícias na internet. A revelação é surpreendente, mas preocupante por dois motivos distintos. Primeiro porque nos alerta sobre um problema grave de saúde humana. Segundo porque a ciência já sabe disso há décadas.



Os primeiros estudos sobre o tema surgem na década de 1980. No início da década começa a ficar evidente que os agrotóxicos não afetam somente os organismos-alvo considerados "pragas" (e.g., Ware, 1980). Ainda em meados da primeira metade dos anos 1980 são publicadas as primeiras evidências científicas da relação dos agrotóxicos com a saúde humana, com foco especial em agricultores, usuários diretos de agroquímicos (e.g., Moses, 1989; Sharp et al., 1986). Ainda no final da mesma década e início da década seguinte (1990), emergem as primeiras evidências da relação dos agrotóxicos com a fertilidade humana (e.g., Donat et al., 1990; Strohmer et al., 1993).

E o tema reaparece na literatura esporadicamente desde então (e.g., Sánchez-Peña et al., 2004). Entretanto, este era um problema que se destacava mais pelas implicâncias óbvias que carrega. Contudo, os efeitos na fertilidade é um aspecto que compõe um problema mais complexo: a desmasculinização do homem (e.g., LeBlanc et al., 1997) e outras disfunções menos evidentes em mulheres (e.g., Wills et al., 1993), além do câncer (e.g., Zahm et al., 1993).

A descoberta da relação dos pesticidas com a fertilidade do homem aconteceu, portanto, no início da década de 1980. E resultou da convergência de estudos em diferentes áreas da biologia e das ciências médicas, que convergiram para um problema comum: a relação não só de pesticidas, mas de uma infinidade de substâncias residuais e subprodutos industriais, que passaram a fazer parte do dia-a-dia das pessoas, com a diminuição da fertilidade masculina e o aumento da ocorrência de doenças sistêmicas e relacionadas aos órgãos sexuais. Essa descoberta e o desenvolvimento inicial do conhecimento sobre o problema pode ser visto num documentário de cerca de 36 minutos, editado no início da década de 1980 na Inglaterra, intitulado “Agressão ao Homem − A Feminização do Macho” (ver link abaixo). O vídeo permite ter uma noção clara do problema ― recomendo fortemente assistir.

Cena do vídeo "Agressão ao Homem" na qual um elecóptero aplica DDT em um lavoura.

Curiosamente esse vídeo nunca foi divulgado no Brasil, e provavelmente nunca foi assistido além de um círculo muito restrito de interessados. Eu tive contato com esse material no início da década de 2000, quando assisti a uma palestra sobre o assunto, proferida por Luiz Jacques Saldanha, na época funcionário da SEMA (Sec. de Meio Ambiente de Porto Alegre, RS). Na ocasião, a palestra foi aberta com o documentário citado acima seguido por uma apresentação sobre o que havia sido descoberto até aquele momento a partir da publicação do vídeo. Foi chocante me deparar com aquelas informações. Mas, mais impressionante ainda foi saber que tudo aquilo estava acontecendo e ninguém sabia, ninguém fazia nada a respeito. Mais informações sobre o tema podem ser encontradas no sítio “Nosso Futuro Roubado”, criado e mantido pelo mesmo Luiz Jacques Saldanha e colegas (ver link abaixo).

Sítio: Nosso Futuro Roubado. Link: http://www.nossofuturoroubado.com.br/quem_somos.html

Essa defasagem na difusão de um tema importante pelas mídias em diferentes níveis é uma das preocupação do nosso blog (Journal Explorator), pois pode impedir ou prejudicar o uso da ciência como feramenta para o desenvolvimento da sociedade em qualquer área da vida humana, como no caso do tema desse texto: “saúde humana”. A gestão de problemas reais e importantes não pode esperar “décadas” pela transformação da informação gerada pela ciência em informação pública pela mídia e outros mecanismos. Além disso, até que o conhecimento científico se transforme em "herança cultural", ou seja, passe a fazer parte da caixa de ferramentas da sociedade, leva certo tempo.

A divulgação de conhecimentos é fundamental para a tomada de consciência pela sociedade. E é essa tomada de consciência que leva as pessoas a adquirir ciência sobre determinado problema e reivindicar soluções, podendo muitas vezes desencadear mudanças profundas no modus operandi da sociedade.

Por outro lado, não me surpreende os mecanismos de comunicação serem tão defasados ao tratar determinados assuntos. O foco de interesse da mídia é tão restrito ― restrito aos temas de interesse e à audiência ― que parece não haver uma responsabilidade com seu próprio papel na sociedade e na história.

A própria questão dos agrotóxicos é antiga, e já gerava polêmica nos setores interessados devido aos efeitos de venenos como DDT em humanos e animais silvestres. O livro “Primavera Silenciosa” (Silent Spring), da bióloga e escritora Rachel Louise Carson já tratava, em 1962 (ano da 1ª edição; Carson, 1962), sobre os impactos do uso de DDT, alertando para os perigos dos agrotóxicos. Contudo, de lá para cá, apesar do banimento do DDT e outros agrotóxicos, muitos outros surgiram e são usados em grande abundância na agricultura, sendo esta uma questão polêmica e mal resolvida até hoje.

Livro: primavera Silenciosa. Link: https://biowit.files.wordpress.com/2010/11/primavera_silenciosa_-_rachel_carson_-_pt.pdf

Nesse contexto, o avanço da industrialização da sociedade chegou a tal ponto que é praticamente impossível viver livre dessas substâncias. De fato vivemos imersos num mar de estrógenos (hormônios femininos) artificiais formados por substâncias químicas sintéticas encontradas em diversos produtos, como plásticos, agroquímicos, remédios, revestimentos de latas, conservantes de alimentos, produtos de limpeza, cosméticos, etc. O livro “O Futuro Roubado” (Our Stolen Future), de Theo Colborn (Theodorine Colborn), professora da Universidade da Flórida (EUA), discute em detalhe o problema (link para o livro em ‘.pdf’ abaixo).


Dada a dimensão e complexidade do problema, esse pode ser um dos maiores problemas ambientais da história, e praticamente (quase) ninguém sabe nada a respeito. Obviamente há grande interesse das corporações industriais/econômicas em gerir o problema. Não seria surpresa se houvesse algum tipo de desinformação organizada ou estimulada pelos setores de poder da economia, já que tais substâncias derivam de processos de indústrias como as do petróleo, medicamentos e alimentos, só para citar as mais importantes. Por essas e outras razões, o problema pode ser muito mais de gestão da informação e educação que de conhecimento técnico e tecnológico.

Referências

Carson, R. 1962. Silent Spring. Boston, MA: Houghton Mifflin, 359p.
Chiu, Y. H., Afeiche, M. C., Gaskins, A. J., Williams, P. L., Petrozza, J. C., Tanrikut, C., Hauser, R. & Chavarro, J. E. 2015. Fruit and vegetable intake and their pesticide residues in relation to semen quality among men from a fertility clinic. Human Reproduction, v. 30, n. 6, p. 1342–1351.
Donat, H., Matthies, J., & Schwarz, I. 1990. Fertility of workmen exposed to herbicide and pesticide. Andrologia, v. 22, n. 5, p. 401–407.
LeBlanc, G. A., Bain, L. J. & Wilson, V. S. 1997. Pesticides: multiple mechanisms of demasculinization. Molecular and cellular endocrinology, v. 126, n. 1, p. 1-5.
Moses, M. 1989. Pesticide-Related Health Problems and Fannworkers. AAOHN Journal, v. 37, n. 3, p. 115–130.
Sánchez-Peña, L. C., Reyes, B. E., López-Carrillo, L., Recio, R., Morán-Martínez, J., Cebrián, M. E., & Quintanilla-Vega, B. 2004. Organophosphorous pesticide exposure alters sperm chromatin structure in Mexican agricultural workers. Toxicology and Applied Pharmacology, v. 196, n. 1, p. 108–113.
Sharp, D. S., Eskenazi, B., Harrison, R., Callas, P. & Smith, A. H. 1986. Delayed health hazards of pesticide exposure. Annual Review of Public Health, v. 7, p. 441–471.
Strohmer, H., Boldizsar, A., Plöckinger, B., Feldner-Busztin, M., & Feichtinger, W. 1993. Agricultural Work and Male Infertility. American Journal of Industrial Medicine, v. 24, n. 5, p. 587–492.
Ware, G. W. 1980. Effects of pesticides on nontarget organisms. In: Gunther, F. A. & Gunther, J. D. (Eds.), Residue Reviews. Springer, New York, NY, v. 76, p. 173–201.
Wills, W. O., de Peyster, A., Molgaard, C. A., Walker, C. & Mackendrick, T. 1993. Pregnancy Outcome Among Women Exposed to Pesticides through Work or Residence in an Agricultural Area. Journal of Occupational and Environmental Medicine, v. 35, n. 9, p. 943–949.
Zahm, S. H., Weisenburger, D. D., Saal, R. C., Vaucht, J. B., Babbitt, P. A., & Blair, A. 1993. The role of agricultural pesticide use in the development of non-hodgkins lymphoma in women. Archives of Environmental Health, v. 48, n. 5, p. 353–358.

24 de mar. de 2015

Política, Qualidade de Vida e a Teia da Aranha

Foz do Rio Pardo no rio Jacuí (Rio Pardo, RS) durante pulso de inundação no inverno de 2014.
Foto: Leon M. Rodrigues

Não é de hoje que a classe política faz ‘vista grossa’ às informações geradas pela ciência ao tomar decisões. A qualidade ambiental (e, consequentemente, nós) tem sido profundamente afetado por essa negligência. Para citar alguns exemplos nas últimas décadas, temos a perda de diversidade genética dos alimentos devido à introdução e ‘variedades de laboratório’ (híbridos, transgênicos, etc.) na agricultura ao longo das décadas. A questão os recursos hídricos, que vem se agravando ao longo das décadas e dando recentemente fortes sinais com a crise na região metropolitana e São Paulo, é debatia amplamente no meio científico. A gravidade do problema já é bem compreendida no meio acadêmico há muito tempo. Mas apesar e todo conhecimento e divulgação, parece que o meio político não consegue perceber o que está à sua frente. E talvez a crise recente não seja apenas uma crise, mas o agravamento de um problema crônico que tende a se agravar cada vez mais, como sugere o texto de Lamin-Guedes (2015).

As florestas também vêm sofrendo com a ignorância ambiental da classe política, especialmente com a recente aprovação do novo Código Florestal. Diversos estudos científicos comprovam que as faixas protegidas como “Áreas de Preservação Permanente” (APPs), como margens de rios, topos de morros, etc., devem ser mais largas do que determina o atual Código Florestal (Lima et al., 2014). É importante entender que a extensão das áreas protegidas tem relação com a ‘área e vida’ das espécies que vivem nelas. Ou seja, se a extensão da área protegida precisa ser compatível com a área e vida de uma espécie (p.ex., Martín, 2008; Longepierre et al.; 2001; Doak & Mills, 1994). Do contrário está não conseguirá sobreviver.

Além disso, as APPs não servem somente para proteger as espécies que vivem nelas, mas servem para proteger os recursos hídricos, já tão ameaçados, como discutido acima. As florestas de margens de rios os protegem da erosão e assoreamento e são um importante filtro de poluentes. Também contribuem para a cadeia alimentar das espécies aquáticas. Na verdade existe uma grande dependência das espécies aquáticas em relação aos ecossistemas terrestres adjascentes (p.ex., Jones et al. 1999). E com relação às florestas e topos e morros, sua importância, além das já mencionadas, elas protegem as diversas pequenas nascentes que alimentam os granes mananciais.

Assim, é possível perceber com alguns exemplos polêmicos conhecidos que existe uma conexão entre os diferentes componentes da natureza, incluindo o ser humano, que acaba sofrendo as consequências. Se rompermos uma ponta da teia, toda sua estrutura é alterada, tal como a “teia da aranha”. A questão é: Como fazer para os tomadores de decisões perceberem os problemas ambientais e a importância de resolvê-los? Também deve ser feita as seguintes perguntas: Há interesse em resolver o problema ambiental e da qualidade de vida ou há outros interesses mais fortes? Há interesse em manter o status quo para a manutenção de tais interesses?

Acredito que tudo é uma questão de percepção, e que esta percepção é determinada pelo conhecimento de cada um. A ignorância ou falta de ciência sobre as coisas impede uma percepção clara da realidade e leva a atitudes equivocadas. Um os primeiros passos para tratar a ignorância é a alfabetização. Por isso podemos dizer que para tratar a ignorância ambiental, precisamos de “alfabetização ambiental” ou “alfabetização ecológica”, dependendo do autor. Porém, esse não é um problema que afeta somente as famílias de baixa renda. Parece ser um problema que independe de renda, pois vemos a mais alta ignorância (e arrogância) ambiental tanto entre os mais pobres como entre os mais ricos. Assim, talvez a cultura e a educação sejam o nó mais problemático da ‘teia ambiental’.

O contexto sociopolítico atual exemplifica bem a ignorância ambiental no caso do Brasil. Enquanto falamos de economia, soberania, corrupção, PIB, eleição, etc., a educação parece sempre ficar de lado. A educação é o processo pelo qual o conhecimento científico, já mencionado, é transformado em conhecimento cultural e passa a fazer parte do ideário e modus operandi das pessoas. O estudo de Miranda et al. (2010) exemplifica bem esse processo. Com boa educação, o povo vota melhor, os políticos decidem melhor, a sociedade se organiza melhor... O problema é que os efeitos da educação só se sentem a longo prazo, quando as gerações futuras estiverem à frente da sociedade, votando, trabalhando e fazendo política.

Por isso, a mais potente e importante ferramenta para transformar a sociedade é a educação. Sem ela, tudo continuará como sempre esteve, incluindo a política e a economia que, apesar de mudarem os protagonistas, se mantém através dos mesmos modelos. Nas últimas décadas, por exemplo, a desigualdade social e a pobreza vêm diminuindo no Brasil, o que é um avanço do ponto de vista social. Mas, apesar de amenizadas, as relações sociais e de trabalho continuam essencialmente as mesmas. As mudanças necessárias para o estabelecimento de um modelo que sustente a qualidade de vida não virão de um regime de governo ou projeto político, mas sim da educação. O projeto de governo é fundamental, mas o governo pode e deve contribuir valorizando e estimulando o processo educacional para estabeleçamos conexões fortes e duradouras na ‘teia ambiental’.


Bibliografia

Doak, D. F. & Mills, L. S. A useful role for theory in conservation. Ecology, v. 75, n. 3, p. 615-626, 1994. Disponível em: http://www.researchgate.net/profile/L_Mills/publication/230693610_A_useful_role_for_theory_in_conservation/links/5491893c0cf214269f29f7bf.pdf
Jones, E. B., helfman, G. S., harper, J. O. & Bolstad, P. V. 1999. Effects of riparian forest removal on fish assemblages in southern Appalachian streams. Conservation Biology, v. 13, n. 6, p. 1454-1465. Disponível em: http://littletnwi.org/wp-content/uploads/2014/04/j.1523-1739.1999.98172.x.pdf
Lima, A., Bensusan, N. & Russ, L. 2014. Código Florestal. Por um debate pautado em ciência. Brasília, IPAM, 75p. Disponível em: http://www.ipam.org.br/biblioteca/livro/Estudo-do-Ipam-mergulha-na-producao-cientifica-existente-para-entender-importancia-das-florestas/761
Longepierre, S., Hailey, A. & Grenot, C. 2001. Home range area in the tortoise Testudo hermanni in relation to habitat complexity: implications for conservation of biodiversity. Biodiversity & Conservation, v. 10, n. 7, p. 1131-1140. Disponível em (resumo): http://link.springer.com/article/10.1023/A:1016611030406
Martín, J. L. 2009. Are the IUCN standard home-range thresholds for species a good indicator to prioritise conservation urgency in small islands? A case study in the Canary Islands (Spain). Journal for Nature Conservation, v. 17, n. 2, p. 87-98. Disponível em: http://www.researchgate.net/profile/Jose_Martin19/publication/258225119_Are_the_IUCN_standard_home-range_thresholds_for_species_a_good_indicator_to_prioritise_conservation_urgency_in_small_islands_A_case_study_in_the_Canary_Islands_(Spain)/links/00b7d52775bfdc3d72000000.pdf
Miranda, A. C. de B., Jófili, Z. M. S., Leão, A. M. dos A. C., & Lins, M. 2010. Alfabetização ecológica e formação de conceitos na educação infantil por meio de atividades lúdicas. Investigações em Ensino de Ciências, v. 15, n. 1, p. 181-200. Disponível em: http://www.if.ufrgs.br/ienci/artigos/Artigo_ID233/v15_n1_a2010.pdf

Ciberografia

Alisson, E. 2013. Perda da biodiversidade é problema global. Planeta Sustentável − Ambiente. Disponível em: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/ambiente/perda-biodiversidade-problema-global-747037.shtml
IPAM. 2015. Estudo conclui que debate sobre código florestal ignorou produção científica existente. IPAM – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia. Dispónível em: http://www.ipam.org.br/noticias/Estudo-do-Ipam-conclui-que-debate-sobre-codigo-florestal-ignorou-producao-cientifica-existente/3230/destaque

Lamin-Guedes, V. 2015. Crise da água na região metropolitana de São Paulo, Brasil. Global Education Magazine. Disponível em: http://www.globaleducationmagazine.com/crise-da-agua-na-regiao-metropolitana-de-sao-paulo-brasil/

7 de jan. de 2015

Ecologia está na moda. Mas o que é isso?

Fonte: CULTURAMIX.COM
Vemos frequentemente o termo “ecologia” em textos, matérias, reportagens e diferentes formas de divulgação de produtos e serviços. Cada vez mais o status de ser “ecológico” é bem vindo, sendo cada vez mais importante como fator positivo na valorização e divulgação de um produto ou serviço.
Entretanto, a concepção popular que o termo vem adquirindo é bem confusa e existe uma distorção em relação ao significado real da palavra. Além disso, há muita dificuldade das instituições e das próprias pessoas de enquadrar corretamente algo como “ecológico” ou “não-ecológico”.
Primeiro, o significado de palavra vem de um ramo das Ciências Naturais, desenvolvido inicialmente como um ramo da Biologia. A ciência “Ecologia” é o estudo das interações entre os diferentes componentes bióticos (seres vivos) e abióticos (clima, relevo, solos, etc.) que formam os ecossistemas. Assim quando uma alteração é causada num dado ecossistema, acaba afetando, por um “efeito cascata” ― como uma reação em cadeia ―, afetando direta ou indiretamente todos os componentes do ecossistema. Daí a noção de impacto ambiental. Ou seja, quando as atividades do ser humano produzem alterações no ambiente de um ecossistema, tais alterações repercutem na estrutura do ecossistema, afetando os seres vivos e os processos do ecossistema.
Numa concepção mais ampla, podemos incluir o ser humano na paisagem ecológica. Assim, as ações humanas passam a fazer parte da ecologia dos ecossistemas. Nessa concepção todas as ações humanas são ecológicas. Mas, considerando a concepção em que os ecossistemas são formados pelos elementos naturais ― não incluindo os elementos artificiais produzidos pelo homem ―, o que seria considerado ecológico nas atividades humanas? De fato nada! Pois se os seres humanos não são considerados como parte dos ecossistemas naturais, o que eles fazem não faz parte da ecologia dos ecossistemas, portanto não é ecológico.
Parece que a noção popular de algo ecológico tem a ver com o tipo de efeito sobre os ecossistemas e os seres vivos. Quando uma atividade produz efeitos positivos sobre os ecossistemas e suas espécies, diz que “é ecológico”. Quando os efeitos são negativos, diz-se que “não é ecológico”. Todavia, alguma coisa é ecológica independentemente de causar efeitos positivos ou negativos. Por exemplo, quando um predador (p. ex. uma onça) abate uma presa (p. ex. uma capivara), gera efeitos negativos na população de capivaras. Mesmo assim, a predação (onça comendo a capivara) é uma ação ecológico.
De qualquer forma, aceitemos que existem duas aplicações amplas para o termo ecológico: uma científica, independente dos efeitos negativos ou positivos, e outra popular, relacionada mais á questão “ambiental” e aos efeitos das ações humanas sobre a natureza. Mesmo aceitando essa segunda aplicação do termo, existe grande dificuldade de enquadrar uma atividade no que se refere a “ser ou não ser ecológico”.
Um bom exemplo é o suposto “eco-tijolo” (p. ex. http://www.ecol-tijolo.eco.br/), que são fabricados a partir de uma mistura de solo e cimento, que é submetida à alta pressão (Fig. 1). Note que no exemplo usado para ilustrar ocorre o uso de óleo diesel para o funcionamento da máquina de prensagem. Além disso, o processo de reação da liga libera alguns gases perigosos (Fig. 1).

Figura 1. Fluxograma do inventário do subsistema de vedação de blocos de solo-cimento (Fonte: EcoMáquinas).
O argumento em favor do eco-tijolo seria o de que não usa nenhuma energia proveniente da degradação ambiental. Porém, a produção do cimento usado na liga resulta de um processo complexo que gera diferentes tipos de poluição, incluindo ruídos, material particulado, calor, gases estufa (dióxido de carbono − CO2, dióxido de enxofre − SO2), gases tóxicos (monóxido de carbono − CO, óxidos nitrogenados) e metais pesados (compostos de chumbo) (Fig. 2).

Figura 2. Esquema do processo de produção de cimento destacando os principais tipos de poluição gerados (Fonte: Estevez et al. (sem ano)).

Nesse caso, a fabricação o “eco-tijolo” não gera resíduos sólidos, mas gera gases. E o processo de prensagem demanda energia, normalmente produzida numa hidrelétrica ou termelétrica, que gera impactos ambientais, ou o uso de combustível nem sempre de origem biológica. Além disso, o cimento usado na fabricação gera impactos e esses devem ser incluídos na avaliação do produto final. Se a empresa inclui o cimento na produção, automaticamente está estimulando a produção de cimento. Assim, se reduz os impactos por um lado, aumenta por outro.
Equívocos como esse são mais comuns do que se pensa. É o caso da reciclagem de certos materiais, como o PET. Ao reciclar uma garrafa PETt, não será produzida outra garrafa, pois o material resultado do processamento é de menor qualidade e servirá para outras finalidades, como produção de cerdas para vassouras. É claro que a “reciclagem”, nesse caso, gera uma redução da necessidade de mais matéria prima para produzir cerdas de vassoura ou outros produtos. Mas é evidente que em algum momento não será possível “reciclar”, pois a cada ciclo a qualidade do material é perdida. Há portanto um ganho em termos de eficiência, mas não há a eliminação total dos resíduos e impactos.
Além disso, o próprio termo “reciclar” é mal empregado no caso do PET. Como a matéria prima não será usada no mesmo processo ou ciclo, como no caso do alumínio e do vidro, não trata-se de uma ‘re’ciclagem. Ocorre, na verdade, uma aproveitamento dos resíduos de outro processo, o que, até certo ponto, é mais benéfico do que descartar após o primeiro uso (garrafa PET).

Essas questões são triviais, mas são suma importância para mostram como ainda precisamos aprender muito sobre as questões ambientais para atuarmos como cidadãos críticos e participar ativamente na construção de uma sociedade mais sustentável, algo ainda muito distante de nossa realidade.

9 de out. de 2014

Interesse e Curiosidade, a Chave para Uma Educação Eficiente

Um tema bastante discutido há muito tempo, mas sempre distante da realidade do processo de educação agora conta com evidências científicas. “Aprendemos melhor quando temos interesse”, e esse deveria ser um dos princípios orientadores mais importantes da educação em todas as fases da vida.
A theme much discussed long time, but always distant from the reality of the education process now has scientific evidence. "We learn best when we are interest," and this should be one of the most important guiding principles of education at all stages of life.
Uma pesquisa publicada por Matthias J. Gruber e colaboradores na revista Neuron (2014) trás fortes evidências da relação da aprendizagem com a curiosidade. Veja abaixo o comentário sobre o estudo publicado recentemente na revista Nature (seguem os links para o comentário e artigo no final da postagem).
A survey published by Matthias J. Gruber and colleagues in Neuron (2014) magazine offers strong evidence of the relationship of learning with curiosity. See below the comment on the study recently published in Nature (follow the links at the end for the comment and article).


Como a Curiosidade Melhora a Aprendizagem
How Curiosity Enhances Learning

Dunas de areia clara com areia escura na superfície de Marte em imagem obtida pela sonda espacial Mars Reconnaissance Orbiter (MRO). (Fonte: Folha de São paulo). "A curiosidade levou os cientístas (e a ciência) a transcender as fronteiras no nossos sistema planetário, e tem levado nossa percepção cada vez mais longe".


A curiosidade aumenta a capacidade das pessoas de aprender e reter novas informações, graças a centros de recompensa e de memória chaves no cérebro.

Curiosity boosts people’s ability to learn and retain new information, thanks to key reward and memory centres in the brain.

Matthias Gruber e seus colegas da Universidade da Califórnia (Davis, CA) pediu a voluntários para avaliar seu nível de curiosidade para uma série de questões triviais, e então escaneou seus cérebros enquanto ouviram as perguntas e esperaram pelas respostas.

Matthias Gruber and his colleagues at the University of California, Davis asked volunteers to rate their level of curiosity for a series of trivia questions, and then scanned their brains as they saw the questions and waited for the answers.

No caso de questões sobre as quais eles estavam curiosos, os participantes lembraram melhor de respostas do que para questões sobre as quais eles estavam menos interessados​​. Os escâneres do cérebro mostraram aumento de atividade durante este aprendizado em regiões responsáveis por recompensas e regulam a formação da memória, e revelou elevada conectividade entre as duas regiões.

For questions that they were curious about, participants remembered answers better than for questions in which they were less interested. Brain scans showed increased activity during this learning in regions that respond to reward and regulate memory formation, and revealed heightened connectivity between the two regions.

Foram mostrados rostos alheios aos voluntários enquanto aguardavam as respostas triviais, e eram melhores em aprender as faces quando sua curiosidade era despertada. Isto sugere que a curiosidade também contribui com a aprendizagem de informação incidental.


The volunteers were shown unrelated faces while they waited for the trivia answers, and were better at learning those faces when their curiosity was aroused. This suggests that curiosity also helps with the learning of incidental information.


Comentário da Naturei:

Artigo original:
Neuron http://doi.org/v6m (2014)

20 de mar. de 2014

Um Caos Elegante


Há poucas teorias universais na ecologia e são distantes entre si, mas é isso que a torna fascinante.

Fonte: LOVEintheSNOW
Um dos textos do editorial da revista Nature desse ano comenta sobre um debate interessante sobre o estudo de sistemas ecológicos. E ao contrário do que muitos pensam, a Ecologia é apresentada no texto, semelhante a outras grandes áreas do conhecimento, como uma ciência da complexidade. Mas, diferente dos campos mais notórios das ciências naturais, talvez o caminho para estudar ecologia não seja necessariamente a busca por padrões ou leis abrangentes, mas a compreensão do funcionamento único de cada ecossistema. O texto segue em tradução não totalmente literal, e pode conter alguns erros, sem prejudicar a compreensão.

Para alguns cientistas em outros campos, a ecologia deve parecer relativamente simples. Muitos dos organismos vivem em uma escala muito humana e são de fácil acesso, especialmente em ecologia de comunidades. Os ecólogos não precisam de equipamentos especiais para ver e contar alces. Não há microscópios eletrônicos, telescópios espaciais ou sondas de perfuração que podem dar errado. É fácil.

No entanto, os ecólogos sabem que seu objeto pode ser tão problemático como qualquer outro. A Ecologia poderia ser fácil, se não fosse por todos os ecossistemas – vastamente complexos e variáveis como são. Até mesmo o deserto mais austero ou o pântano aparentemente menos inexpressivo é uma rede intricada e densa de milhares de espécies fotossintetizadoras, predadores, animais presas, parasitas, detritívoros e decompositores. Como o naturalista E. O. Wilson colocou: “Uma vida inteira pode ser gasta em uma viagem de Magalhães em torno do tronco de uma árvore.” E nem tudo o que se pode aprender a partir de tal viagem seria transferido para a próxima árvore. História, acaso, clima, geologia e – cada vez mais – atividades humanas fazem com que não haja dois ecossistemas que funcionem da mesma maneira.

Os cientistas gostam de impor ordem e estrutura no caos, e os ecólogos não são diferentes. A Ecologia tem suas grandes teorias, mas elas estão repletas de cláusulas condicionais, ressalvas e exceções. Há padrões claros em escalas globais e de uma única espécie, mas o meio termo é, como o biólogo John Lawton colocou afetuosamente in 1999, “uma confusão”. É duvidoso que as generalidades que fundamentam os padrões complexos da natureza serão sempre formuladas de maneira sucinta o suficiente para ajustar-se a um molde.

Esta complexidade é demonstrada pelo trabalho que questiona uma famosa e elegante ‘cascata trófica’ no Parque Nacional Yellowstone, Wyoming (EUA) (discutido na pág. 158 desta edição da Nature). A teoria diz que os lobos, reintroduzidos no parque nos anos 1990 após décadas de ausência, expulsam os alces para longe de certas áreas. Isso tem um efeito dominó para o resto da cadeia alimentar, permitindo o florescimento da faia preta e o salgueiro após décadas sendo pastejadas quase até à morte. Mas estudos em anos recentes sugerem que os lobos sozinhos não controlam o ecossistema. Outros fatores – a presença de represas de castores e ursos pardos, meteorologia, caça por humanos e até mesmo mudanças climáticas – também afetam a população de alces e o crescimento de árvores e arbustos.

Seria útil ter padrões gerais e comuns em Ecologia. Saber como os ecossistemas vão responder às mudanças climáticas, ou ser capaz de prever as consequências da introdução ou reintrodução de uma espécie, tornaria a conservação mais efetiva e eficiente. Mas, uma teoria unificada para tudo não é o único meio para adquirir conhecimento.

Mais ecólogos devem abraçar o lado não preditivo da sua ciência. Desvendar o que está acontecendo em sistemas complexos pela observação de como ecossistemas evoluíram e pela manipulação do ambiente em experimentos, é uma ciência tanto quanto a criação de fórmulas para descrever como ecossistemas trabalham.

Mudanças de paradigmas, afinal, são raras em Ecologia. Os debates são frequentemente resolvidos quando conceitos concorrentes combinam, e não quando um empurra o outro completamente para fora da mesa. Considere as idéias contrastantes de regulação ‘top down’ dos ecossistemas por carnívoros e a regulação ‘bottom up’ pela nutrição disponível a partir de plantas. Há um trabalho lento na direção de uma teoria integrada para prever quando o ‘topo’ vai governar e quando a ‘base’ será responsável – e esta teoria vai levar algum tempo para considerar os jogadores do meio, os herbívoros.

Outros debates ecológicos tem seguido um caminho similar. A discordância sobre se os ecossistemas complexos são mais ou menos estáveis que os mais simples, por exemplo, também está se acomodando em um consenso: depende.

Predições práticas úteis não precisam derivar de leis universais. Em vez disso, podem vir de um conhecimento profundo do funcionamento único de cada ecossistema – conhecimento adquirido pela observação e análise. Existem propostas de teorias abrangentes, mas se os ecólogos querem produzir trabalho útil para a conservação, podem fazer melhor ao passar seus dias sentados calmamente em ecossistemas com seus cadernos impermeáveis ​​e lentes de mão, escrevendo tudo.

A complexidade ecológica, a qual pode parecer como um emaranhado de detalhes impenetrável, é a fonte de grande parte de nosso prazer na natureza. Se os ecossistemas fossem quebra-cabeças simples que trabalham todos da mesma maneira, perderiam muito de seu mistério, surpresa e beleza. Muitos trabalhos de conservação visam proteger a complexidade e variabilidade que tornam os ecossistemas tão difíceis de se entender e, de fato, de conservar.

As regulamentações ecológicas não são as únicas razões para promover a conservação e combater as extinções. Às vezes podemos argumentar para a conservação de uma espécie particular porque a ecologia fornece uma base científica para isso. Outras vezes, construímos o argumento porque há uma boa chance de que a Ecologia logo irá alcançar e explicar porque as espécies são importantes.

Mas, mesmo que alguns predadores façam pouco ao se assentarem no topo de suas pirâmides alimentares, selecionando alguns herbívoros, realmente queremos viver em um mundo sem eles? Responder a essa pergunta é realmente fácil.

Texto original em: Nature. Editorial, v. 507, n. 7491, p. 139-140, 13 March 2014, doi:10.1038/507139b. Disponível em: <http://www.nature.com/news/an-elegant-chaos-1.14849>; Acessado em: 20/03/2014.

Tradução: Leon maximiliano Rodrigues

27 de out. de 2013

Cachorro Vinagre - O Pequeno Lobo Brasileiro


O ‘cachorro-vinagre’ (Speothos venaticus Lund) também é conhecido, dependendo da região, como ‘cachorro-do-mato-vinagre’, ‘janauiras’, ‘jaguaracambé’ ou ‘acarambé’ (do tupi guarani, que quer dizer cachorro-do-mato). Tinha uma ampla e densa distribuição no Brasil. Hoje está ameaçado de extinção. Como é uma espécie de interior de florestas, sua população tem sido reduzida drasticamente pala redução de seu hábitat devido ao desmatamento.
Além disso, o problema do contato com o ambiente humana trás um fator adicional de pressão sobre esta espécie. O cachorro vinagre é um predador potencial dos animais domésticos, o que torna o encontro da espécie com o ser humano um problema. Como possui hábitos diurnos, está mais exposto, podendo esse ser um fator adicional.
Mas o status de conservação dessa espécie é incerto. Seus hábitos são pouco conhecidos pela ciência. Por ser um animal bastante arredio, seu estudo e observação não é uma tarefa fácil. Geralmente evita a presença humana e o contato com animais domésticos. Procura tocas para se abrigar e se esconder. Sua coloração também o ajuda a se camuflar na floresta, pois se confunde com a cor do solo, troncos de árvores, etc. No estado de Minas Gerais foi considerado extinto desde 1995, sendo seu último avistamento em 1840. Somente 167 anos depois, em 2007, o cachorro-vinagre foi novamente avistado no Parque Estadual Veredas do Peruaçu (MG). 

Fonte: AgênciaMinas; Foto: Guilherme Ferreira / Instituto Biotrópicos

Apesar de pouco conhecido, já foi bem popular no passado. Existe inclusive uma expressão, não tão usada atualmente, associada ao animal e difundida em diferentes estados do Brasil, que é: "Vai te deitar vinagre!", e é usada normalmente quando alguém está incomodando. Porém, hoje um pouco esquecido por uma cultura cada vez mais urbanizada, a espécie corre sério risco. A origem do nome ‘cacchorro-vinagre’ é incerta, mas há duas possíveis origens. Uma delas, a mais provável, seria pelo fato de a urina do animal ter ‘cheiro semelhante a vinagre’. A outra seria devido à ‘cor de vinagre’ do pelo.
Nos ecossistemas, o cachorro-vinagre desempenha uma função importante na cadeia alimentar. É o único canídeo brasileiro que vive em grupos. Por essa razão tem uma dieta variada, a mesma razão pela qual incomoda o homem em ambientes rurais. Alimenta-se de animais bem pequenos, como sapos, ratos, etc. E, apesar de ser pequeno, medindo até cerca de 70 cm e pesando até 8 kg, se alimente também de animais bem maiores que ele, como filhotes de filhotes de capivara e anta, graças ao comportamento de grupo. Pode inclusive perseguir e capturar sua preza dentro da água. Possui adaptações para isso, como membranas interdigitais nas patas, o que melhora a eficiência do deslocamento na água.
O cachorro-vinagre forma pequenas matilhas de até cerca de 10 indivíduos — com registro de até 12 indivíduos , o que lhe permite articular a caçada de animais grandes. Grupos estudados foram observados organizados de forma que, enquanto alguns perseguiam a preza na água, outros se posicionavam em vigia em terra, cercando a preza. Por essa razão, compete com outros predadores maiores, como a onça, e pequenos, como a jaguatirica e o graxaim.

Fonte: Redação UOL Crianças; Foto: Edson de Souza Lima

Contudo, até recentemente não existiam programas específicos, exceto ações pontuais, voltados à conservação dessa espécie. Porém, recentemente, o Plano de Ação Nacional de Conservação do Cachorro-Vinagre, coordenado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação Mamíferos Carnívoros (CENAP), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), vai começar um programa de reprodução em cativeiro no Parque Zoobotânico de Parauapebas, na Floresta Nacional de Carajás, Pará. O objetivo principal é tentar retirar a espécie da categoria 'vulnerável' do Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção.
Mas, a conservação de qualquer espécie exige um envolvimento de todos os setores da sociedade. E para que qualquer iniciativa de conservação de uma espécie dê certo, o primeiro passo é conhecer a espécie que se quer conservar. Então, aproveite para conhecer um pouco mais sobre o cachorro vinagre (ver Fontes no final).

Bottom de divulgação do site Ecologia – Produtos e Conscência

 Leon Maximiliano Rodrigues

Fontes:
Diretoria de Biodiversidade do IEF / Ascom-Sisema. 2007. Cachorro-do-Mato-Vinagre é avistado em Minas após 167 anos. Instituto estadual de Florestas (Minas Gerais). Dispnível em <http://www.ief.mg.gov.br/noticias/1/260-cachorro-do-mato-vinagre-e-avistado-em-minas-apos-167-anos> Acessado em 27/10/2013.
AgênciaMinas. 2013. Cachorro-vinagre é registrado no Norte de Minas Gerais. Agência Minas – Notícias do Governo do Estado de Minas Gerais, Meio Ambiente. Disponível em <http://www.agenciaminas.mg.gov.br/noticias/cachorro-vinagre-e-registrado-no-norte-de-minas-gerais/> Acessado em 27/10/2013.
Bourscheit, A. 2012. Raro cachorro-vinagre é registrado vivo em MG. WWF Brasil. Disponível em <http://m.wwf.org.br/participe/empresas_meio_ambiente/?32942/Raro-cachorro-vinagre--registrado-vivo-em-MG> Acessado em 27/10/2013.
Paschoal, F. 2013. Cachorro-vinagre: reprodução em cativeiro tenta salvar animal ameaçado de extinção. National Geographic Brasil: Curiosidade Animal. Disponível em <http://viajeaqui.abril.com.br/national-geographic/blog/curiosidade-animal/cachorro-vinagre-animal-ameacado-de-extincao/?utm_source=redesabril_ngb&utm_medium=facebook&utm_campaign=redesabril_ngb> Acessado em 27/10/2013.

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