28 de set. de 2018

Tempos de Mudanças

Modelo do Quadro dos Limites Planetários e Sociais proposto pela economista e cientista Kate Hawork

Há décadas ambientalistas e cientistas vem alertando sobre os impactos das atividades humanas sobre o meio ambiente em escala global. Os primeiros avisos surgiram através do livro “Primavera Silenciosa” (Silent Spring, 1962) da bióloga Rachel Carson, que alertava sobre os efeitos nocivos dos agrotóxicos1.
Primeira edição do livro Silent Spring (Primavera Silenciosa), de Rachel Carson, publicado em 1962.

Rachel Carson (Foto: Alfred Eisenstaedt/Time Life Pictures, via Getty Images, in The New York Times)
 
Em 1965 a Comissão de Aconselhamento à Presidência dos Estados Unidos alerta que o efeito estufa é uma preocupação real, e em 1975 o cientista americano Wallace Broecker lança o termo “aquecimento global” no domínio público ao usá-lo no título de um de seus artigos científicos2. Desde então, além dos poluentes químicos como os agrotóxicos e das mudanças climáticas, vários outros problemas ambientais em escala planetária vem sendo identificados. E no conjunto configuram o quadro das “mudanças globais”.
Não obstante, a ciência vem mostrando que o desfecho dos acontecimentos vem configurando um cenário pior do que as expectativas e previsões científicas mais pessimistas. Estamos definitivamente alterando de forma definitiva e irreversível o planeta como um todo3. Mesmo locais inóspitos e intocados diretamente pela mão humana estão sendo atingidos pelos impactos das mudanças ambientais globais.
Aqui no Brasil ainda não nos damos conta do que vem ocorrendo, pois somos privilegiados do ponto de vista ambiental. Gozamos da maior área habitável do mundo, o melhor clima para a sobrevivência e para a agricultura, os melhores solos e maiores áreas para a agricultura, a maior biodiversidade do plante e as maiores reservas de água e de muitos minerais importantes, incluindo o petróleo. Essa condição favorável ameniza os impactos dos efeitos das mudanças sobre a vida das pessoas.
Porém, para os mais atentos a atual conjuntura planetária – segundo as palavras do professor Dr. Johan Rockström, pesquisador e diretor executivo do Centro de Resiliência de Estocolmo (Stockholm Resilience Centre), na Suécia – na qual passamos a ser “um grande mundo num pequeno planeta” tornou-se algo notável e inegável. Mais que isso, essa nova conjuntura está estampada nas mídias. Percebi isso folhando recentemente uma edição do jornal Correio do Povo, mais precisamente a edição de 25/09/20184.
Pesquisador e Diretor Executivo do Centro de Resiliência de Estocolmo (Universidade de Estocolmo, Suécia) na Cúpula das Novas Fronteiras na Nova Zelândia (Foto: Medium).
Porém, as pistas dessa nova conjuntura planetária não são tão fáceis de serem percebidas, pois estão fragmentadas e dispersas. E estabelecer a visão integrada dos fatos isolados pela mídia não é tarefa fácil. Mas é o desafio necessário de quem quer estar um passo à frente no entendimento da realidade atual.
Por exemplo, as mudanças ambientais sobre as quais ouvimos falar frequentemente vieram para ficar. O clima tem se tornado cada vez mais instável e imprevisível, com eventos extremos cada vez mais intensos e frequentes. Na edição já mencionado do Correio do Povo verifiquei as seguintes matérias: “Chuva contínua provoca alagamento”, “Moradores das ilhas bloqueiam BR 290” e “Voos são cancelados em Passo Fundo”. Todas notícias relacionadas com consequências de eventos climáticos incomuns. Esse tipo de notícia seria esperado para o inverno, em meados de agosto, quando as planícies de inundação do sul do país normalmente passariam pela inundação típica do final do inverno causada pela saturação das bacias e grande volume de chuvas do período. Soma-se a isso a previsão de uma primavera chuvosa e menos quente5, quando a primavera deveria ser a estação mais seca do ano por essas bandas do sul.
O comportamento incomum do clima que vem sendo registrado é causado pelo fenômeno do El Niño. Então está tudo bem, pois o El Niño” sempre existiu! Estaria se não fosse o fato de qua “antigamente” o El Niño” ocorria mais ou menos a cada 5 anos. Porém, atualmente sua frequência e intensidade tem sido cada vez maior6.
Alterações na ocorrência de eventos de El Niño extremos al longo do tempo (Wang et al. 2017).
 Mas as mudanças não são só ambientais. São também sociais. Podemos perceber um indicativo disso nas matérias da mesma edição: “Porto Alegre pretende virar uma ‘smart city’”, “Greve geral na Argentina (contra acordo com o FMI)”. Duas características na nova sociedade do Antropoceno são notadas aqui: a mudança de uma sociedade burocrática para uma sociedade tecnocrática e a emergência de manifestações sociais que afetam relações internacionais, ambas traços do mundo tecnológico globalizado.
Entretanto, os conflitos a serem enfrentados são maximizados pela ignorância da sociedade em relação aos problemas do mundo globalizado – social e ambientalmente. Ainda pensamos no agente poluidor como algo desconectado do ambiente que recebe a poluição. Não se trata somente de diminuir a poluição para enquadrar as emissões em limites estabelecidos em leis específicas. Isso quer dizer que as mudanças ambientais não são uma externalidade. Somos parte do ambiente onde vivemos, estamos intimamente conectados com a natureza e sofremos junto com ela as consequências da degradação ambiental. E mesmo que reduzamos as emissões, estamos alterando a superfície do planeta de muitas outras formas, mudando processos importantes que mantém o equilíbrio da composição da atmosfera, do clima e da produtividade dos sistemas dos quais dependemos para sustentar a humanidade3.
Parte do satélite Sygnus em primeiro plano e a região da Europa ao fundo à noite (Fonte: Nasa; Edição de imagem: Jerry Wright, 07/08/2017).
Tais mudanças levam a desafios gigantescos devido a conflitos que só tendem a se intensificar caso não haja uma mudança radical na forma como interagimos em sociedade e com a natureza. Podemos verificar um exemplo desses conflitos na mesma edição do Correio do Povo, na matéria: “Cotações (da carne) passam por período de baixa – Necessidade de liberar campo para soja e consumo interno deprimido elevam oferta”. Por um lado, o aumento do preço da carne tem levado ao consumo reprimido. Por outro, a pressão sobre o solo visando cada vez mais intensificar o seu uso para produzir, leva ao conflito entre o uso como pastagem e como área de cultivo de soja. Então, o gado deve ser vendido para liberar o solo, mas o consumo está menor devido ao alto preço. Ou seja, o custo dos recursos aumentam enquanto a pressão sobre os mesmos também aumenta. Como reduzir a pressão insustentável sobre o solo e ao mesmo tempo reduzir o custo do acesso aos recursos? Eis um dos grandes desafios da sociedade do Antropoceno.
Outra pista da crescente pressão sobre o solo está implícita na matéria: “Evento discute uso de solo no inverno”. Assim, além da concorrência entre culturas pelo mesmo espaço de solo, existe ainda a tendência do uso contínuo, sem descanso, do solo. Toda essa pressão sobre esse recurso tão vital só poderá levar a um resultado: o esgotamento sistemático da capacidade do solo suprir os serviços básicos à produção de alimento.
Outro recurso importante para o modelo atual de desenvolvimento é o petróleo. Na mesma edição do Correio do Povo aparece a matéria: “OPEP segura produção e alavanca o preço”. A OPEP é a “Organização dos Países Exportadores de Petróleo”. Essa matéria expõe algo muito importante na sociedade do mercado: o ‘lucro’ é um dos fatores mais importantes na tomada de decisão – em detrimento de fatores sociais e ambientais. Essa é uma distorção grave da foma como nos relacionamos com o planeta e a sociedade. Quem está no centro das decisões: o lucro, o capital ou as pessoas, a natureza?
Essa dicotomia tem caracterizado a sociedade desde de a revolução industrial – talvez bem antes se pensarmos que a moeda apenas substituiu outras formalizações do poder que existiam no passado – e está no cerne das disputas políticas. Contudo, nessa disputa se perde algo importante de vista. Algo que parecia não existir até pouco tempo: o risco do colapso da civilização. Não é mais possível esconder o horizonte que se descortina para a humanidade através das descobertas científicas e dos fatos do dia a dia. Dentro de pouco tempo não será possível o desenvolvimento, seja econômico, seja social, caso não ocorra uma mudança radical no modo como lidamos com os recursos naturais.
A economista e cientista Kate Raworth alerta para as falhas do modelo de desenvolvimento econômico, que não inclui o ser humano e a natureza, e que deve ser completamente revisto7. Assim, nosso modo de conduzir a sociedade, de nos relacionarmos com a natureza e gerir nossa economia precisam ser profundamente repensados, implicando em amplas e profundas mudanças, E a ciência nos diz que o caminho para essa mudança passa pela justiça social e eficiência ecológica7,8.
Economista inglesa Kate Raworth. Também é pesquisadora do Instituto de Mundança Ambiental (Environmental Change Instituto) da Universidadede Oxford.
De uma forma ou de outra a humanidade terá que se adaptar às mudanças em curso. O que exatamente isso significa é difícil dizer. Dependerá muito de escolha que faremos como indivíduos e como coletivo, nas instituições formais e informais nas quais atuamos. Algumas certezas já existem. É certo que o estilo de vida consumista imposto pela sociedade industrial vem se mostrando mal sucedido e uma péssima escolha3,7,8.


Leon Maximiliano Rodrigues

Referências

1Carson, Rachel. 1962. Silent spring. Boston, MA, United States: Houghton Mifflin Company, 368p.
2BBC Brasil, 20 de setembro de 2013, Uma cronologia da mudança climática no mundo.
3Rockström, Johan, Steffen, W., Noone, K., Persson, Å., Chapin III, F. S., Lambin, E., Lenton, T. M., Scheffer, M., Folke, C., Schellnhuber, H. J., Nykvist, B., de Wit, C. A., Hughes, T., van der Leeuw, S., Rodhe, H., Sörlin, S., Snyder, P. K., Costanza, R., Svedin, U., Falkenmark, M., Karlberg, L., CorellR. W., Fabry, V. J., Hansen, J., Walker, B., Liverman, D., Richardson, K., Crutzen, P. & Foley , J. 2009. Planetary boundaries: exploring the safe operating space for humanity. Ecology and society, v. 14, n. 2., art. 32.
4Correio do Povo. Porto Alegre, Terça-Feira, 25 de Setembro de 2018, Ano 123, Nº 360.
5Josélia Pegorim. Primavera começa com chuva no Brasil. ClimaTempo, 22/09/2017 às 14:32.
6Cai, W., Borlace, S., Lengaigne, M., van Rensch, P., Collins, M., Vecchi, G., Timmermann, A., Santoso, A., McPhaden, M. J., Wu, L., England, M. H., Wang, G., Guilyardi, E. & Jin, F.-F. 2017. Continued increase of extreme El Niño frequency long after 1.5°C warming stabilization. Nature Climate Change, v. 7, n. 8, p. 568-572.
7Raworth, Kate. 2013. Defining a Safe and Just Space for Humanity. In: Worldwatch Institute (eds) State of the World 2013. Island Press, Washington, DC.
8Steffen, Will, Richardson, K., Rockström, J., Cornell, S. E., Fetzer, I., Bennett E. M., Biggs, R., Carpenter, S. R., de Vries, W., de Wit, C. A., Folke C., Gerten, D., Heinke, J., Mace, G. M., Persson, L. M., Ramanathan, V., Reyers, B., Sörlin, S. 2015. Planetary boundaries: Guiding human development on a changing planet. Science, v. 347, n. 6223, art. 1259855.

Leitura Recomendada

Raworth, Kate. 2012. Um espaço seguro e justo para a humanidade. Podemos viver dentro de um “donut”? Oxford, United Kingdom: Oxfam GB.

23 de abr. de 2018

O Dia da Terra no Antropoceno

Micropaisagem se desenvolvendo em um pedaço de tronco morto no Rincão Gaia, sede da Fundação Gaia, ONG fundada pelo importante ambientalista José Lutzenberger, que ficou internacionalmente conhecido por defender a teoria de Gaia, de James Lovelock. Na Natureza tudo é aproveitado, como esse fragmento de madeira, não existe lixo ou resíduo. Esse é o conceito tecnológico que devemos aprender com a Natureza para prosperar no Antropoceno (Foto: Leon Maximiliano Rodrigues, 23/10/2015).
Ontem foi o dia da Terra. Comemorado desde 1970, o dia 22 de abril foi criado como marco da consciência ambiental do nosso planeta. A data foi criada a partir de um movimento nos Estados Unidos cuja pressão culminou na criação da Agencia de Proteção Ambiental ("Environmental Protection Agency") daquele país. Infelizmente só lembrei hoje da data... Mas, dado o atual contexto planetário, venho fixar um pouco mais a motivação da data.
No vídeo do Youtube linkado ao Doodle ontem o Google também homenageou a antropóloga britânica Jane Goodall (Valerie Jane Morris Goodall) que, no vídeo, deixa uma mensagem [1]. Quando começou a publicar seus trabalhos Jane Goodall não foi muita aceita pela comunidade científica porque não tinha formação acadêmica. Mas com o tempo seus estudos permitiram entender muito sobre o comportamento dos primatas e de nós mesmos, tornando-se importantes referências para as novas gerações de pesquisadores.
Segundo Tony Gerber (National Geographic), "uma jovem inglesa estuda chimpanzés na África e revoluciona a ciência dos primatas... apaixonada por animais, sem formação de pesquisadora, abriu caminho nos mundos masculinos da ciência e da mídia, fez descobertas fundamentais na sua área e se tornou um rosto mundialmente famoso do movimento conservacionista" [2]. Jane Goodall é, portanto, um nome emblemático no cenário da conservação da natureza, homenageado por uma das maiores empresas de tecnologia digital contemporânea numa data emblemática para o planeta. Essa homenagem simboliza de certa maneira a conexão entre dois mundos: o natural e o virtual. O primeiro tão esquecido e apartado do ser humano. O segundo tão presente no quotidiano de todos.
Mas, sobre o dia da Terra, a data não serve para pensarmos no planeta como um globo rochoso onde residimos e cultivamos nosso alimento. O planeta Terra, como disse o cientista e ambientalista britânica James Lovelock (James Ephraim Lovelock) é, na verdade, um grande "sistema vivo". E como tal, assim como nós e qualquer outro organismo, pode adoecer. Mas diferente de nós, que precisamos manter nossa constituição e organização mais ou menos constante para continuarmos vivos, o planeta -- Gaia, como denominado na teoria de Lovelock -- pode mudar de estado caso seus principais processo sofram grandes impactos. O novo estado é imprevisível, e pode ser benéfico ou prejudicial para muitas espécies, incluindo a nossa.
Nossa pegada na Terra já é tão profunda e marcante que inauguramos uma nova época geológica, denominada, segundo a Ciência, de "Antropoceno". Essa nova época vem sendo marcada pela transgressão de certos limites planetários, o que pode nos levar a mudanças irreversíveis nos processos e organização do planeta, da biosfera, como alerta o pesquisador do Centro de Resiliencia de Estocolmo (Stockholm Resilience Centre), na Suécia, Johan Rockström. Mas, ainda segundo Rockström, esse momento de grandes mudanças é também um momento de grandes oportunidades para a sociedade.
Por isso, pelo momento em que vivemos, lembrarmos do dia da Terra, lembrarmos da própria Terra, sairmos da nossa esfera quotidiana para percebermos e abraçarmos a biosfera em cada atitude do nosso dia-a-dia é talvez o que nos torna um pouco mais humanos. Nossa consciência deve ir além de nossas necessidades imediatas, tanto no tempo como no espaço, para percebermos nossa conexão com a Natureza, com a Biosfera.

[1] https://www.youtube.com/watch?time_continue=105&v=q8v9MvManKE
[2] https://www.nationalgeographicbrasil.com/animais/2018/02/quem-e-jane-goodall

22 de dez. de 2017

O Garoto Propaganda dos Agrotóxicos

Atividade da Escola Família Agrícola do Vale do Sol - EFASol (RS), no Rincão Gaia (Rio Pardo, RS). A EFASol dedica-se à formação de técnicos em agroecologia através da adoção da Pedagogia da Alternância, onde o aluno constrói o conhecimento a partir da sua própria realidade


Fiquei realmente preocupado com a matéria do site "O Globo" sobre o jornalista "Nicholas Vital" que defende o uso dos agrotóxicos. O jornalista, autor do livro "Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo", argumenta que há uma "desinformação" sobre o uso dos agrotóxicos em favor dos alimentos orgânicos, quando na verdade para quem acompanha o movimento há décadas sabe que ocorre exatamente o contrário: uma desinformação em favor dos agrotóxicos e desvalorização dos alimentos orgânicos, os quais seriam considerados menos produtivos e menos vantajosos para o agricultor.


Se olharmos para o grande produtor, aquele que possui milhares de hectares, fica difícil imaginar grande produtividade sem os agrotóxicos, que substitui métodos que exigiriam mais mão de obra. Mas se olharmos para o pequeno e médio produtor, a situação é bem diferente. Quando há uma conversão do cultivo convencional para o orgânico, ocorre uma inversão econômico no "empreendimento" do pequeno agricultor. Com o veneno, a maior parte do capital que circula na mão do agricultor é "custo" de produção. Quando passa a cultivar de forma orgânica, a maior parte do capital que circula na mão do agricultor é lucro. Isso não é uma conclusão baseada em estudos (que praticamente inexistem), mas baseada no relato de diversos produtores orgânicos em diferentes partes do Brasil.


O principal motivo da queda de braço entre a indústria dos insumos agrícolas sintéticos e o movimento pró agricultura orgânica e agroecológica é sim a descontaminação do meio ambiente e dos alimentos para uma melhor qualidade de vida e preservação da natureza. Contudo, no contexto social e econômico há um tema que só percebe quem está por trás dos bastidores do movimento social e das corporações econômicas ligadas à agroindústria: "o controle do mercado dos insumos e produtos agrícolas". Me parece o jornalista Nicholas Vital não demonstra interesse por esse tema. Mas, é justamente nesse campo que ocorrem os principais efeitos da escolha do tipo de agricultura a ser adotada (agrotóxica ou orgânica/agroecológica).


No caso da agricultura convencional, o domínio do mercado (e dos lucros) fica na mão da agroindústria enquanto o agricultor vira um mero instrumento dela, perdendo o domínio da cultura, da semente, dos insumos, da técnica e do lucro. Já com a agricultura orgânica ou agroecológica o agricultor assume o controle, como há décadas atrás, antes da Revolução Verde, dos processos e insumos que usa, da semente e principalmente recupera o vínculo cultural com a terra, ganha dignidade e autoestima, pois deixa de ser um mero instrumento de uma corporação alienígena e passa a ser um ator ativo e dono do que faz.


Há ainda uma tentativa de minimizar a questão da contaminação do agricultor e dos alimentos. Sobre isso, poderíamos até chegar a um acordo sobre uma quantidade mínima de exposição a uma substância tóxica. Só que isso faria sentido se se tratasse de um evento pontual de contaminação. Porém, estamos falando do planeta inteiro usando agrotóxicos sistematicamente e permanentemente.


O autor defende que o Brasil é o único país que produz até 3 safras em um ano num ambiente de clima tropical, e que "a gente tem que entender que o agricultor não usa agrotóxico porque quer, mas por que precisa. Ele adoraria não ter que usar os defensivos, que representa 30% dos custos."


Bom, no caso de algumas culturas os custos com agrotóxicos (e não defensivos) ultrapassa os 60%. E como já disse, quando o agricultor passa a adotar o cultivo orgânico há uma inversão da relação entre "custos" e "ganhos". E mesmo que a produção seja um pouco menor, o ganho é significativamente maior. Para tirar a dúvida, desafio a qualquer um perguntar a um agricultor orgânico "por que adotar o cultivo orgânico?".


"Segundo Vital, o que acontece é uma campanha de desinformação para ampliar o consumo de alimentos orgânicos, que são muito mais caros e precisam de uma justificativa para serem escolhidos pelos consumidores." Ora! Se o custo da produção orgânica é menor, por que o preço dos orgânicos é maior? Porque nós vivemos numa economia de mercado. E como a demanda dos orgânicos ainda é menor que a oferta, o preço fica mais alto. Foz do Iguaçu, por exemplo, fica numa das regiões com maior densidade de produtores orgânicos do país. E lá encontramos produtos orgânicos nas prateleiras dos mercados dividindo o espaço com os produtos convencionais. Lá a diferença de preço é mínima e tende a diminuir porque a cultura dos orgânicos, tanto entre agricultores como consumidores tende a crescer.


O jornalista ainda diz que "falam como se os orgânicos fossem alimentar o mundo, mas não vão. Os preços são 300% mais caros, e representam menos de 0,5% da produção – criticou o jornalista." Se pensarmos na coisa como está, talvez ele tenha razão. Mas temos que pensar nisso tudo como um processo que está apenas começando. E quem conhece, quem acompanha não tem mais dúvidas sobre as vantagens e a importância da agricultura e dos alimentos livres dos agroquímicos.


Agora sobre a afirmação de que os orgânicos são 300% mais caros... me recuso a fazer qualquer comentário, pois é algo totalmente fora da realidade. E sobre a agricultura orgânica corresponder a apenas 0,5% da produção, acho que se é isso, é uma pena. Mas, por outro lado, o número de produtores orgânica vem crescendo continuamente, e isso graças a um movimento que parte dos próprios agricultores e consumidores que escolheram um novo caminho, num movimento totalmente desvinculado das grandes corporações econômicas e governos. E é claro que isso incomoda os donos do mercado, pois eles não estão participando, não estão no controle.


Então, eu me pegunto: O que levaria um jornalista a escrever um livro aparentemente contraditório, defendendo coisas que não podem ser verificadas na prática porque simplesmente não condizem com os fatos? Que interesse existe (ou quem está) por trás da publicação desse livro?

Matéria citada:
Sergio Matsuura. 2017. Jornalista defende uso de agrotóxicos na produção de alimentos. O Globo

2 de fev. de 2017

Transgênicos, Saúde, Ambiente, Economia e Sustentabilidade – A Fragmentação de Vida


Oca no Rincão Gaia (Fundação Gaia). Local onde funcionou a escola pioneira de agroecologia fundada na década de 1980 pelo agrônomo e ambientalista José Antônio Lutzenberger, pioneiro no movimento ambiental e na luta contra o uso de agrotóxicos no Brasil. (Foto: Leon Maximiliano Rodrigues)
 No início do avanço dos transgênicos  um tipo de “organismos geneticamente modificados” (OGMs) na agricultura pelo Brasil e pelo mundo, em meados da década de 1990, o debate girava em torno dos possíveis impactos do uso de transgênicos sobre a saúde humana. Na época nada se sabia sobre a questão. E as corporações econômicas que investiam nessa tecnologia justificavam a adoção sistemática dos OGMs na agricultura pelo fato de não causarem mal à saúde humana e melhorarem a produtividade (trataremos deste último aspecto em outro texto).
Entretanto, o debate sobre os impactos dos OGMs na saúde era de certa forma bem vindo, pois desviava o foco de outro problema associado a essa tecnologia: o controle sobre o mercado de sementes e agrotóxicos. Assim como com as variedades híbridas, a adoção de OGMs tirava do agricultor o domínio sobre as sementes, defencivos e técnicas, colocando esse domínio nas mãos de grandes corporações multinacionais e tornando o agricultor dependente dessas corporações. O debate sobre a questão dos efeitos sobre a saúde também desviava a atenção em relação a outro tema preocupante no meio científico: os impactos ambientais da adoção em escala mundial dos OGMs sobre a biodiversidade de cultivares tradicionais. O cultivo transgênico substituiu rapidamente os cultivares tradicionais de soja no mundo inteiro, tornando praticamente inviável um agricultor retornar ao cultivo de variedades tradicionais, que haviam praticamente desaparecido.
Existem alguns problemas associados a esse processo — não vou discutir todos, mas os relevantes para a presente discussão. Primeiro, deve ser entendido que uma variedade transgênica é desenvolvida em laboratório e possui baixa variabilidade genética. Uma planta com baixa “variabilidade” genética possui baixa capacidade de se adaptar à “variabilidade” do ambiente, como mudanças climáticas ou a emergência de doenças ou pragas novas ou incomuns. Por isso, depende de forte intervenção do agricultor com o uso de defensivos. Porém, para se desenvolver uma variedade em laboratório, a base biológica para o experimento deve ser buscada nos cultivares tradicionais já existentes, os bancos genéticos da biodiversidade. Então, quando a variedade de laboratório introduzida perder produtividade o que normalmente acontece com esse tipo de organismo ao longo dos anos , uma nova variedade deverá ser desenvolvida para substituí-la. Contudo, se os cultivares tradicionais foram substituídos, onde os cientistas irão buscar suas amostras para os novos experimentos se não existe mais o banco genético?
Resumidamente estou falando de “erosão genética” na agricultura causada pela introdução de variedades geneticamente homogêneas produzidas em laboratório. Esse é um dos maiores problemas ambientais com os quais a humanidade terá que lidar e será tratado melhor em outro texto. Mas, recentemente o velho assunto  impactos dos OGMs à saúde humana  foi reacendido devido a estudos e alertas da comunidade científica, os quais tem como principal protagonista a bióloga Stephanie Seneff, do Laboratório de Ciência da Computação e Inteligência Artificial (Computer Science and Artificial Intelligence Laboratory – CSAIL) do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (Massachusetts Institute of Technology – MIT). Tais e alertas apontam para evidencias de relações entre o uso de alimentos baseados na soja transgênica com a incidência de Alzheimer, autismo, câncer, doenças cardiovasculares e deficiências da nutrição, além de outros (1). Isso é bastante alarmante. Porém, a causa primária do problema não são os OGMs em si, mas o “agrotóxico” para o qual o organismo foi modificao para resistir: o “glifosato”, princípio ativo contido no Round-Up, agrotóxico da Monsanto (2), a mesma dona da semente da planta na qual o veneno é usado.
É no mínimo curioso que volumosos recursos financeiros tenham sido investidos para desenvolver um organismo transgênico para que ele resista a um veneno. Por que não desenvolveram uma planta resistente ao ataque de pragas? Assim seria evitado ou reduzido a necessidade de uso de agrotóxicos, tornando a produção mais barata e mais limpa saudável. A resposta é óbvia... A questão não é ser a favor ou contra OGMs. Muitos benefícios podem advir dessa tecnologia, como o desenvolvimento de vacinas (3). Cada caso, ou seja, cada organismo novo desenvolvido em laboratório deve passar por um processo de avaliação em relação a diversos critérios importantes, como possíveis impactos na saúde, no meio ambiente, na economia do mercado e das pessoas, etc. E isso exige ações de longo prazo, incluindo experimentos de longa duração, monitoramento de populações-teste em pequena escala em laboratório e a ação conjunto de especialista de distintas áreas. Porém, isso leva um tempo e custos que o mercado não quer lançar mão.
Bom. Se tudo o que foi discutido acima procede, a adoção da soja transgênica trouxe impactos permanentes em vários setores em nível global e local: na economia das comunidades agrícolas e das empresas que produzem esses organismos, além da cadeia ligada a elas; no meio ambiente, com sérias consequências para o futuro da produção de alimentos (esse é um assunto para outro texto mais à frente); nas relações de mercado e controle da tecnologia, que eram dominantemente centradas nas comunidades de agricultores e agora concentra-se nas corporações multinacionais donas das patentes; e finalmente na saúde humana. E nesse último caso, apesar das consequências preocupantes para nós humanos, para a economia de mercado trás grandes benefícios, pois aumenta o PIB das nações. Além do ganho das multinacionais, aumenta de forma considerável a necessidade de busca pelos agricultores por tecnologias compatíveis com a produção OGMs e por serviços de financiamento para pagar as multinacionais e a cadeia ligada a elas. Aumenta o PIB (Produto Interno Bruto) também porque gera uma demanda considerável tanto dos agricultores (produtores) como dos consumidores por serviços de saúde devido aos impactos já mencionados, movimentando o setor e o mercado de remédios, um dos dos mais rentáveis do mundo.
Porém, o contrassenso disso tudo é que toda essa nova demanda, apesar de representar aumento do PIB, gera grande piora na qualidade de vida das pessoas e empobrecimento dos agricultores, o que constitui uma lógica “perversa” e “insustentável”. Assim, no sistema de mercado em que vivemos hoje o ser humano cumpre um pepel apenas de engrenagem, que serve somente para manter o mercado aquecido e funcionando. E este mercado se revela insensível ao ser humano. Por isso chamamos de “economia de mercado”, e não “economia humana” ou, mais adequadamente, “economia da natureza”. É lamentável, mas a lógica do funcionamento da sociedade em que estamos imersos é perversa, em especial para o ser humano e de u modo geral para a natureza, com a quase totalidade da humanidade e da biodiversidade seriamente prejudicada. E grande parte desse prejuízo é irreversível, como a perda de biodiversidade e o dano à saúde.

(2) Página compilada com diversos slides e artigos científicos relacionados à atuação da bióloga Stephanie Seneff. <https://people.csail.mit.edu/seneff/>
(3) Matéria sobro o uso de de vacinas baseadas na tecnologia de OGMs. <https://falandodedna.wordpress.com/category/vacinas-transgenicas/>

4 de dez. de 2016

UM NOVO CAMINHO É POSSÍVEL?

A mão humana se mistura com as forças da natureza para compor a paisagem. Lavoura de arroz na várzea do Rio Pardo, município de Rio Pardo, RS (Foto: Leon Maximiliano Rodrigues).

Nosso sistema se mostra cada vez mais autofágico, autodestrutivo. Alimentá-lo através do nosso consumo é o comportamento mais natural. Parece a coisa certa a se fazer, pois vemos todo mundo vivendo dessa forma. Quanto mais melhor. Quanto mais industrializada, pasteurizada, processada, refinada for nossa vida, melhor. Pelo menos e o que nos parece...

Vivemos a era dos descartáveis. Não só as embalagens, mas nossas roupas, carros, celulares, computadores, amizades e ideias também estão se tornando descartáveis. E isso é fácil de entender. Para um sistema baseado no mercado é preciso vender. E quanto mais vendermos melhor. Assim o descartável, a substituição de algo por algo mais novo é muito estimulada. Coisas duráveis não fazem bem para o "mercado", pois impede de vender mais.

Por outro lado, vemos muitas pessoas condenando o consumo, as amizades superficiais, o descaso com a natureza, etc. Isso é, até certo ponto, bom, e mostra um lampejo de conscientização. Mas, na prática, nossa sociedade está tão transformada numa grande máquina de vida expressa, que nos resta quase nenhuma alternativa para ser diferente e desfrutar melhor a vida.

Por exemplo, se desejamos consumir algo mais natural, mais orgânico, vamos ao mercado e simplesmente não encontramos, exceto em raros pontos em grandes centros urbanos ou em locais distantes onde se escondem os poucos produtores orgânicos e agroecológicos.

Apesar disso, muitos se empenham -- e poucos o conseguem -- em tentar um estilo de vida mais saudável em todos o sentidos: alimentação, convívio humano, ambiente de vida e de trabalho, etc. Mas, o desejo de romper com o sistema cresce visivelmente. É só conferirmos as mídias sociais e o comportamento das pessoas.

Contudo, romper com o sistema na busca de um futuro sustentável não significa subir no palanque e dar discursos inflamados, ou se candidatar por um partido menos conhecido que defende ideias nada ortodoxas. Muitos que fizeram isso acenderam ao poder, mas não conseguiram romper com o sistema de fato. Ou se corromperam ou foram excluídos.

Romper com o sistema, antes de qualquer coisa, significa assumir atitudes práticas que nos distancie do que julgamos errado e nos aproxime do que entendemos ser mais sustentável e daquelas pessoas com quem podemos colaborar através de um estilo de vida mais humano e sustentável.

24 de jan. de 2016

Um Giro de Notícias, a Questão Ambiental e as Conexões Ocultas

A NATUREZA RECICLA TUDO. Folha no início do processo de decomposição, o qual liberará seus nutrientes para os processos biogeoquímicos dos ecossistemas. Processos complexos também expressam beleza. Foto: Leon Maximiliano Rodrigues
Não é possível crescer indefinidamente. Nenhum modelo teórico ou base de dados sustenta a ideia de um crescimento permanente e eterno. Qualquer sistema tem uma capacidade suporte limitada no tempo e no espaço. A Terra e a sociedade estão inclusas neste raciocínio. Por isso, é chocante perceber que as grandes autoridades do mundo ainda acreditam no “crescimento” como sinônimo de “desenvolvimento”. E que isso deve ser buscado permanentemente a qualquer custo. Trata-se virtualmente de um dogma religioso da sociedade atual.

A busca cega pelo crescimento permanente — da economia, do consumo, da produção, etc. — só leva a um prognóstico bastante óbvio: colapso. Não me surpreenderia se fosse descoberto, daqui a alguns anos ou décadas, que a crise mundial pela qual estamos passando é resultado da busca descontrolada da sociedade pelo crescimento permanente, e que esse talvez tenha sido um dos maiores erros de nossa época.

Não é mais possível negar que, independentemente de regime de governo, tendência política e medidas econômicas, o mundo inteiro avança cada vez mais numa crise sem precedentes. Não trata-se mais da crise do país X ou Y, do governo A ou B. A crise é mundial, é do próprio mercado global. As nações tem seus altos e baixos, mas em média a crise se agrava.

O aumento do consumo das famílias e da qualidade de vida no Brasil nas duas últimas décadas pode ser atribuído a um redirecionamento da economia para as classes mais baixas. Isso, associado ao nosso vasto território privilegiado em termos de recursos, certamente levou ao crescimento econômico e social. Mas isso tem um custo. Nossos recursos naturais estão diminuindo: florestas, fertilidade do solos, minerais, petróleo, etc. Nossa posição vantajosa em relação aos recursos naturais permite uma sobrevida durante a crise. Mas, cedo ou tarde a natureza dará seus avisos de que estamos nos aproximando de um limite crítico. Por outro lado, os limites do manejo econômico já são sentidos, como mostram algumas matérias. Já se fala em recessão no Brasil (1), e a indústria nacional parece dar sinais de arrefecimento (2;3).

Ao vasculhar recentemente as notícias dispersas na internet sobre diferentes temas da atualidade, incluindo as já citadas, fica claro, para os mais atentos, os sinais de que o sistema (o planeta e a sociedade) ajustam-se a esse cenário. Porém, tratam-se de informações dispersas em notícias de diferentes áreas, aparentemente não relacionadas. Tais informações incluem desde o consumo das famílias à opinião de importantes cientistas.

Por exemplo, lá no outro lado do mundo, a China se estabeleceu como a grande potência econômica atual. Mas, seu poder não é infinito. É sim delimitado pela disponibilidade de recursos (naturais) — o espaço talvez seja um fator importante — para serem explorados e transformados em riquezas. Porém, tais recursos vem de um planeta com reservas limitadas e sendo explorado por muitos outros países também bem povoados.

Num país superpopuloso, com uma sociedade altamente consumista — assim como o planeta como um todo —, a tendência é a superexploração dos recursos. Então, cedo ou tarde, a curva de crescimento tem que desacelerar, acompanhando o ritmo da redução e/ou esgotamento dos recursos. Afinal os recursos não crescem como a população e o padrão de consumo. Em matéria do iG São Paulo (4) é destacado que o PIB da China cresceu 6,9% em 2015, sendo a menor taxa de crescimento desde 1990. Essa taxa, segunda a matéria, “ficou um pouco abaixo do esperado pelo governo chinês”. Então é claro que se espera sempre o crescimento. E talvez as menores taxas de crescimento registradas recentemente para o país sejam sinais de que os limites estão se aproximando.

Pode ser isso que acontece com as culturas consumistas mais antigas, como a norte-americana e a europeia. As nações desses dois continentes nunca enfrentaram crises crônicas como a atual, na forma de uma crise coletiva das nações. A China — e outros países, como o Brasil — só estaria seguindo os mesmos passos, porém em ritmo mais acelerado devido ao padrão de consumo atual, o tamanho da população e a tecnologia disponível para exploração dos recursos.

No caso dos padrões de consumo mencionado acima, todos pensam que o ideal é que o poder de consumo das pessoas “aumente”. Existe até um indicador estatística para essa variável: Intensão de Consumo das Famílias (ICF). E existe também, assim como a preocupação com o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de uma nação, uma preocupação com o crescimento desse índice e de como o Brasil, por exemplo, está em relação a outros países (5). Portanto, a ideia de crescimento esta profundamente enraizada na noção de desenvolvimento e baliza o julgamento sobre o sucesso de um país na busca pelo desenvolvimento.

Caso os padrões econômicos e culturais atuais não mudem, a desaceleração pode ser catastrófica, na forma de um colapso. Essa percepção já inspirou diversas produções cinematográficas. Mas não trata-se de teoria conspiracionista ou paranoia transformada em boa estória. Existe respaldo científico para tal possibilidade, e tem a ver com a “capacidade suporte” dos sistemas ecológicos. Tem a ver também com o conceito de “sustentabilidade” tão alardeado nos discursos políticos e nas mídias de massa, mas muito pouco compreendido. O renomado físico Stephen Hawking comenta em entrevista à BBC que, através do progresso da ciência, o homem cria “formas de as coisas darem errado” (6). Hawking fala sobre a possibilidade de desastre em uma escala de tempo de mil ou dez mil anos. Contudo, salienta que “não vamos conseguir estabelecer colônias autossustentáveis no espaço nos próximos séculos, então temos que ser muito cuidadosos neste período”.

Em outra matéria, a qual expõe especificamente a os quatro possíveis cenários futuros previstos por Hawking — e que inclui um destino trágico para a humanidade devido a problemas com o desenvolvimento de armas nucleares, inteligencia artificial e vírus desenvolvidos em laboratório —, o aquecimento global entre como o fator determinante de um dos cenários possíveis (7). Porém, dentre as quatro vias possíveis para um destino trágico, o aquecimento global parece ser a mais inevitável das alternativas. Hawking destaca que "uma das consequências mais graves de nossas ações é o aquecimento global, causado pelos crescentes níveis de dióxido de carbono resultantes da queima de combustíveis fósseis. O perigo é que o aumento da temperatura se transforme em (um processo) autossustentável, se é que já não está assim".

Entretanto, a grande questão ecológica, e não física, não diz respeito de um possível desastre com a humanidade e da colonização do espaço. A grande questão é que até que algum desastre se configure, as coisas devem piorar gradativamente devido às mudanças climáticas e outros problemas ambientais. A consequência disso é a degradação da qualidade e aumento do custo de vida. Até onde se sabe, já ultrapassamos a capacidade suporte do planeta, como sugere matéria da Planeta Sustentável de 2010 (8). Já ultrapassamos o ponto de virada da curva de equilíbrio entre “crescimento” (do consumo, da economia e da população) da sociedade e a disponibilidade de recursos naturais para sustentar a humanidade. Por isso, é lógico esperar um arrefecimento da economia.

Voltando um pouco mais longe no passado, desde a década de 60 até o período atual, os problemas ambientais evoluíram de problemas locais, como o lixo entupindo uma vala, passando pelas inversões térmicas nos grande centros urbanos, as chuvas ácidas, até o que chamamos atualmente de “mudanças globais”, que inclui não somente as mudanças climáticas, mas muitas outras mudanças, como a degradação sistemática dos solos no mundo inteiro e as novas epidemias, como o zika virus (9) que se proliferam facilitadas pela grande densidade populacional e a mobilidade das pessoas.

Porém, junto com a abrangência dos problemas ambientais cresce a complexidade dos mesmos, sendo os problemas atuais mais difíceis de gerenciar e mais complicados de entender. Por isso, os métodos e estratégias políticas e de gestão tradicionais não são mais suficientes para lidar com as demandas atuais. Assim, muito provavelmente a crise atual exige da mesma forma um novo nível de compreensão e organização por parte dos agentes do poder e da própria sociedade. Esse novo patamar de compreensão e organização deve ser tão abrangente e estruturado como os problemas a serem resolvidos. Nesse sentido Hawking alerta ainda que “é importante garantir que estas mudanças estejam indo na direção certa. Em uma sociedade democrática, isto significa que todos precisam ter uma compreensão básica da ciência para tomar decisões esclarecidas sobre o futuro”.

Ciberografia

31 de mar. de 2015

Mar de Estrogênios: Poluição Invisível

Petúnia nativa (Ipomoea cf. cairica− (Rio Pardo, RS)
Foto: Leon Maximiliano Rodrigues

Um artigo de 2015, publicado na revista Human Reproduction, trata de um estudo recentes que mostram uma relação do consumo de alimentos com pesticidas e a redução na produção e qualidade do esperma em homens (Chiu et al., 2015). No mesmo ano o estudo ganhou destaque em diferentes sites de notícias na internet. A revelação é surpreendente, mas preocupante por dois motivos distintos. Primeiro porque nos alerta sobre um problema grave de saúde humana. Segundo porque a ciência já sabe disso há décadas.



Os primeiros estudos sobre o tema surgem na década de 1980. No início da década começa a ficar evidente que os agrotóxicos não afetam somente os organismos-alvo considerados "pragas" (e.g., Ware, 1980). Ainda em meados da primeira metade dos anos 1980 são publicadas as primeiras evidências científicas da relação dos agrotóxicos com a saúde humana, com foco especial em agricultores, usuários diretos de agroquímicos (e.g., Moses, 1989; Sharp et al., 1986). Ainda no final da mesma década e início da década seguinte (1990), emergem as primeiras evidências da relação dos agrotóxicos com a fertilidade humana (e.g., Donat et al., 1990; Strohmer et al., 1993).

E o tema reaparece na literatura esporadicamente desde então (e.g., Sánchez-Peña et al., 2004). Entretanto, este era um problema que se destacava mais pelas implicâncias óbvias que carrega. Contudo, os efeitos na fertilidade é um aspecto que compõe um problema mais complexo: a desmasculinização do homem (e.g., LeBlanc et al., 1997) e outras disfunções menos evidentes em mulheres (e.g., Wills et al., 1993), além do câncer (e.g., Zahm et al., 1993).

A descoberta da relação dos pesticidas com a fertilidade do homem aconteceu, portanto, no início da década de 1980. E resultou da convergência de estudos em diferentes áreas da biologia e das ciências médicas, que convergiram para um problema comum: a relação não só de pesticidas, mas de uma infinidade de substâncias residuais e subprodutos industriais, que passaram a fazer parte do dia-a-dia das pessoas, com a diminuição da fertilidade masculina e o aumento da ocorrência de doenças sistêmicas e relacionadas aos órgãos sexuais. Essa descoberta e o desenvolvimento inicial do conhecimento sobre o problema pode ser visto num documentário de cerca de 36 minutos, editado no início da década de 1980 na Inglaterra, intitulado “Agressão ao Homem − A Feminização do Macho” (ver link abaixo). O vídeo permite ter uma noção clara do problema ― recomendo fortemente assistir.

Cena do vídeo "Agressão ao Homem" na qual um elecóptero aplica DDT em um lavoura.

Curiosamente esse vídeo nunca foi divulgado no Brasil, e provavelmente nunca foi assistido além de um círculo muito restrito de interessados. Eu tive contato com esse material no início da década de 2000, quando assisti a uma palestra sobre o assunto, proferida por Luiz Jacques Saldanha, na época funcionário da SEMA (Sec. de Meio Ambiente de Porto Alegre, RS). Na ocasião, a palestra foi aberta com o documentário citado acima seguido por uma apresentação sobre o que havia sido descoberto até aquele momento a partir da publicação do vídeo. Foi chocante me deparar com aquelas informações. Mas, mais impressionante ainda foi saber que tudo aquilo estava acontecendo e ninguém sabia, ninguém fazia nada a respeito. Mais informações sobre o tema podem ser encontradas no sítio “Nosso Futuro Roubado”, criado e mantido pelo mesmo Luiz Jacques Saldanha e colegas (ver link abaixo).

Sítio: Nosso Futuro Roubado. Link: http://www.nossofuturoroubado.com.br/quem_somos.html

Essa defasagem na difusão de um tema importante pelas mídias em diferentes níveis é uma das preocupação do nosso blog (Journal Explorator), pois pode impedir ou prejudicar o uso da ciência como feramenta para o desenvolvimento da sociedade em qualquer área da vida humana, como no caso do tema desse texto: “saúde humana”. A gestão de problemas reais e importantes não pode esperar “décadas” pela transformação da informação gerada pela ciência em informação pública pela mídia e outros mecanismos. Além disso, até que o conhecimento científico se transforme em "herança cultural", ou seja, passe a fazer parte da caixa de ferramentas da sociedade, leva certo tempo.

A divulgação de conhecimentos é fundamental para a tomada de consciência pela sociedade. E é essa tomada de consciência que leva as pessoas a adquirir ciência sobre determinado problema e reivindicar soluções, podendo muitas vezes desencadear mudanças profundas no modus operandi da sociedade.

Por outro lado, não me surpreende os mecanismos de comunicação serem tão defasados ao tratar determinados assuntos. O foco de interesse da mídia é tão restrito ― restrito aos temas de interesse e à audiência ― que parece não haver uma responsabilidade com seu próprio papel na sociedade e na história.

A própria questão dos agrotóxicos é antiga, e já gerava polêmica nos setores interessados devido aos efeitos de venenos como DDT em humanos e animais silvestres. O livro “Primavera Silenciosa” (Silent Spring), da bióloga e escritora Rachel Louise Carson já tratava, em 1962 (ano da 1ª edição; Carson, 1962), sobre os impactos do uso de DDT, alertando para os perigos dos agrotóxicos. Contudo, de lá para cá, apesar do banimento do DDT e outros agrotóxicos, muitos outros surgiram e são usados em grande abundância na agricultura, sendo esta uma questão polêmica e mal resolvida até hoje.

Livro: primavera Silenciosa. Link: https://biowit.files.wordpress.com/2010/11/primavera_silenciosa_-_rachel_carson_-_pt.pdf

Nesse contexto, o avanço da industrialização da sociedade chegou a tal ponto que é praticamente impossível viver livre dessas substâncias. De fato vivemos imersos num mar de estrógenos (hormônios femininos) artificiais formados por substâncias químicas sintéticas encontradas em diversos produtos, como plásticos, agroquímicos, remédios, revestimentos de latas, conservantes de alimentos, produtos de limpeza, cosméticos, etc. O livro “O Futuro Roubado” (Our Stolen Future), de Theo Colborn (Theodorine Colborn), professora da Universidade da Flórida (EUA), discute em detalhe o problema (link para o livro em ‘.pdf’ abaixo).


Dada a dimensão e complexidade do problema, esse pode ser um dos maiores problemas ambientais da história, e praticamente (quase) ninguém sabe nada a respeito. Obviamente há grande interesse das corporações industriais/econômicas em gerir o problema. Não seria surpresa se houvesse algum tipo de desinformação organizada ou estimulada pelos setores de poder da economia, já que tais substâncias derivam de processos de indústrias como as do petróleo, medicamentos e alimentos, só para citar as mais importantes. Por essas e outras razões, o problema pode ser muito mais de gestão da informação e educação que de conhecimento técnico e tecnológico.

Referências

Carson, R. 1962. Silent Spring. Boston, MA: Houghton Mifflin, 359p.
Chiu, Y. H., Afeiche, M. C., Gaskins, A. J., Williams, P. L., Petrozza, J. C., Tanrikut, C., Hauser, R. & Chavarro, J. E. 2015. Fruit and vegetable intake and their pesticide residues in relation to semen quality among men from a fertility clinic. Human Reproduction, v. 30, n. 6, p. 1342–1351.
Donat, H., Matthies, J., & Schwarz, I. 1990. Fertility of workmen exposed to herbicide and pesticide. Andrologia, v. 22, n. 5, p. 401–407.
LeBlanc, G. A., Bain, L. J. & Wilson, V. S. 1997. Pesticides: multiple mechanisms of demasculinization. Molecular and cellular endocrinology, v. 126, n. 1, p. 1-5.
Moses, M. 1989. Pesticide-Related Health Problems and Fannworkers. AAOHN Journal, v. 37, n. 3, p. 115–130.
Sánchez-Peña, L. C., Reyes, B. E., López-Carrillo, L., Recio, R., Morán-Martínez, J., Cebrián, M. E., & Quintanilla-Vega, B. 2004. Organophosphorous pesticide exposure alters sperm chromatin structure in Mexican agricultural workers. Toxicology and Applied Pharmacology, v. 196, n. 1, p. 108–113.
Sharp, D. S., Eskenazi, B., Harrison, R., Callas, P. & Smith, A. H. 1986. Delayed health hazards of pesticide exposure. Annual Review of Public Health, v. 7, p. 441–471.
Strohmer, H., Boldizsar, A., Plöckinger, B., Feldner-Busztin, M., & Feichtinger, W. 1993. Agricultural Work and Male Infertility. American Journal of Industrial Medicine, v. 24, n. 5, p. 587–492.
Ware, G. W. 1980. Effects of pesticides on nontarget organisms. In: Gunther, F. A. & Gunther, J. D. (Eds.), Residue Reviews. Springer, New York, NY, v. 76, p. 173–201.
Wills, W. O., de Peyster, A., Molgaard, C. A., Walker, C. & Mackendrick, T. 1993. Pregnancy Outcome Among Women Exposed to Pesticides through Work or Residence in an Agricultural Area. Journal of Occupational and Environmental Medicine, v. 35, n. 9, p. 943–949.
Zahm, S. H., Weisenburger, D. D., Saal, R. C., Vaucht, J. B., Babbitt, P. A., & Blair, A. 1993. The role of agricultural pesticide use in the development of non-hodgkins lymphoma in women. Archives of Environmental Health, v. 48, n. 5, p. 353–358.