6 de jan. de 2020

Ana Primavesi - A Senescência de Uma Flor Deixa uma Semente de Esperança


Ana Maria Primavesi (Fonte: Revista Attalea Agronegócio).

“Ficamos cientes de que, onde a técnica se choca com as leis naturais, a natureza é que prevalece e domina. Devemos, portanto, reconhecer e aceitar esses limites, fazendo o máximo possível em favor da nossa terra.” (Ana Primavesi)

Ana Maria Primavesi — seu nome austríaco: Annemarie Conrad —, engenheira agrônoma brasileira nascida na Áustria faleceu ontem (05/01/2020). Assim, começamos 2020 com um pilar a menos na luta pela conservação da vida.
Inspirada pelo pai, Sigmund, um dos melhores criadores de gado da Áustria, interessou-se pela lida das terras que circundavam o castelo em que moravam (chamado Pichlhofen) (Knabben, 2019). Segundo Knabben (2019), cursar agronomia foi uma continuidade do que já vivia em casa, uma vida ligada ao trabalho do campo, conectada à natureza.
Ana e Artur Primavesi (seu marido e colaborador) no laboratório da Universidade de Santa Maria, 1962 (Knabben, 2019). O casal foi importante no pioneirisma da Agroecologia.

Ana Primavesi foi e será uma das grandes influências na ciência e na conservação de solos. Através de seu trabalho propôs que o solo fosse entendido com um importante "sistema vivo", visão que vai contra a percepção convencional da agricultura moderna, em que o solo é meramente um suporte para o desenvolvimento da planta, passível de manipulação tal qual uma máquina ou uma receita de bolo.
Livro de Ana Primavesi publicado em 2016, sendo uma de suas últimas contribuições.

Ao entender o solo como um sistema vivo, passamos entender que não é algo estático, mas que evolui com o tempo, através das interação de seus diversos componentes, incluindo os animais invertebrados do solo, os microorganismos (fungos e bactérias), e mesmo as plantas que interagem profundamente com o solo através de suas raízes.
Livro de Ana Primavesi de 1964. Como cientista percebeu desde o início da grande aceleração industrial da sociedade que a humanidade escolheu um caminho errado.

Muito além disso, entretanto, o sistema que promove a fertilidade e estrutura de um solo envolve todo o ecossistema que se desenvolve nele e promove as interações que fazem o solo ser o que é. Assim, se existe um solo fértil numa lavoura, é porque antes existia ali um ecossistema. Ao "limpar" o solo, removendo a vegetação, que culturalmente passamos a considerar um inconveniente, removemos componentes importantes que faziam parte do sistema que promovia a qualidade do solo.
O resultado é que o solo vai gradativamente perdendo sua fertilidades e estrutura. A biodiversidade (fauna e microbiota) do solo vão sendo gradativamente perdidas, levando a uma progressiva incapacidade do solo de manter suas características, como fixação de nutrientes, capacidade de infiltração e retenção de água, etc.
Primavesi anteviu para o solo o mesmo que vem sendo discutido atualmente para o planeta inteiro: a importância da vida e dos sistemas vivos para a manutenção da habitabilidade do planeta. Por isso, promoveu através de seus trabalho a produção de conhecimentos sobre o manejo ecológico e sustentável dos solos.
Livro de Ana Primavesi de 2002.

Ana Primavesi partiu. Mas, deixa um legado importante para a gestão dos solos e para a sustentabilidade humana na Terra. Desejamos que seu legado ganhe o poder de influência que as futuras gerações merecem.

Ana Maria Primavesi (Fonte: Jornal Opção).

Referências

Knabben, V. M. 2019. A extraordinária história de vida de Ana Maria Primavesi. Estudos Avançados, v. 33, n. 96, p. 459-476.

4 de jan. de 2020

Mais é Menos

Logo do movimento Slow Science (Fonte: RING).

“Nós somos cientistas. Nós não blogamos. Nós não tuitamos. Nós necessitamos do nosso tempo.” (SLOW-SCIENCE.org)

Parece que a avalanche de informações em que estamos imersos atualmente, ao contrário do que se podia imaginar, tem sido um obstáculo para a Ciência. Pelo menos é o que diz a professora Uta Frith, pesquisadora alemã que atua no Instituto de Neurociência Cognitiva da University College London.

Professora Uta Frith (Fonte: LifeWatch).


Segundo Frith (2019), a grosso modo, há muita coisa sem relevância sendo publicada, seja por ser mais do mesmo, seja por ser superficial, sem sólida base metodológica. De fato, há uma grande pressão para que os pesquisadores, em todo o mundo, geram certa produtividade em termos de volume de publicações. Isso tem levado muitos pesquisadores a valorizarem a quantidade de artigos publicados em vez da qualidade de suas publicações.
O resultado é que, ao fazermos um levantamento sobre determinado tema, seja para uma revisão ou para formar a argumentação numa análise dados, encontramos uma quantidade enorme de publicações. Fica difícil filtrar o que é relevante e útil para a pesquisa. E frequentemente ficam de fora referências que poderiam trazer contribuições importantes.
Frith defende o que vem sendo denominado como slow science ― em tradução literal: 'ciência lenta' ― em oposição à fast science ― assim como o fast food está para a alimentação. Trata-se de uma concepção em que o que importa é a qualidade e não a quantidade. Uma boa publicação pode dizer mais que várias publicações ruins. E isso tem muito a ver com a própria Ciência: ‘dizer muito falando pouco’.
De acordo com Fernando Nogueira da Costa (2011), professor Titular do Instituto de Economia da UNICAMP (IE-UNICAMP), o movimento Slow Science defende o direito de cientistas fugirem da corrida pelo grande número de publicações e priorizarem qualidade da pesquisa.

Professor Fernando Nogueira da Costa (Fonte: Terraço Econômico).


Uta Frith não está sozinha. Isabelle Stengers, uma importante cientista e filósofa belga, muito influente nos adeptos da ciência da complexidade, também defende a “ciência lenta”, o que pode ser conferido em sua obra recente “Another Science is Possible: A Manifesto for Slow Science” (Stengers, 2018).
Professora Isabelle Stengers (Fonte: maquiavel)


Há dois problemas com a fast science: (1) a pressão por “produtividade”, tendo como principal critério avaliativo a “quantidade”, tem levado a uma enorme quantidade de artigos e periódicos de baixa qualidade ― os chamados “periódicos predatórios” ― os quais inundam as bases de dados e sistemas de pesquisa em rede; (2) torna-se cada vez mais difícil distinguir entre publicações e autores com credibilidade e duvidosos.
O pesquisador acaba se deparando com um grande trabalhoso desafio, que é a tarefas de buscar suas referências, avaliar o que é relevante e também o que digno de credibilidade e filtrar. Só então poderá reunir as referência que poderá utilizar. Na verdade não é exatamente assim que a coisa acontece. Coloquei dessa maneira apenas para ser didático. Na verdade todas essas tarefas acontecem ao mesmo tempo. Mas, dá para imaginar como o trabalho fica mais difícil e demorado quando temos que lidar com um volume grande de publicações que oferecem muito pouco em termos de informação relevante.
Neste sentido, a Ciência pode se tornar mais inteligente (e eficiente). Assim, mais do que gerar dados e publicações, que resultem em impacto em seus currículos, os cientistas deverão dedicar tempo para analisar os dados e informações visando extrair o máximo de seus estudos e, assim, obter publicações que gerem maior impacto real no conhecimento científico.

Referências

da Costa, F. N. 2011. Manifesto da Slow Science. Blog Cidadania & Cultura.
Frith, U. 2019. Fast Lane to Slow Science. Trends in Cognitive Sciences, 2020, v. 24, n. 1, p. 1-2.
Stengers, I. 2018. Another Science is Possible: A Manifesto for Slow Science. John Wiley & Sons,  Hoboken - NJ, 220p.